A caverna cínica do isolamento


Em minha primeira coluna no blog da Gradus Editora me dediquei a escrever a respeito da disseminação do COVID-19 e como tal ocorrido poderia levar a um falso “Orientalismo” (preconceito com o Oriente) contemporâneo. O mesmo pode ser verificado através de piadas feitas pelos Ocidentais e abalou até a política internacional Brasil-China, devido a comentários de funcionários do atual governo, o que pode acarretar em grande prejuízo para o comércio externo brasileiro.

Após um mês de meu primeiro texto, estou aqui para falar do isolamento para conter o avanço do COVID-19 no território brasileiro, já que no começo de março não prevíamos uma tomada de cuidados tão rígida e necessária em nossas vidas.

O intuito não é abordar a importância de tal isolamento, visto que tal ponto não é fator de discussão uma vez que a ciência e a área da saúde já fundamentaram sua relevância, e quem discorda é detentor de uma ignorância quase irreversível. Busco aqui refletir sobre o tempo que passamos em quarentena, seus problemas e também as reflexões proporcionadas por esse período.

Ao entrar em quarentena, me ocorreu certa felicidade porque sempre havia desejado um tempo para me isolar da sociedade. Tal sentimento foi mandado para o abismo após a primeira semana. Cresceu em mim uma vontade de sair, ter contato com outras pessoas, ver a cidade; no entanto, por respeito às medidas de saúde, segui firme e forte. Para aplacar as dores desse período, me dediquei aos estudos da Filosofia, saber que amo e que sempre me ajuda a compreender melhor os acontecimentos históricos e as questões humanas.

Para complementar as leituras incipientes que já havia feito, iniciei os estudos dos pensamentos de Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.) e Platão (428/427 a. C. – 348/347 a. C.). Os dois foram influenciados pelo problema do filósofo Parmênides (530 a. C. – 460 a. C.): “o ser é, o não ser não é”. Com base nessa frase que indica uma instabilidade constante, ambos os filósofos se dedicaram a responder a seguinte pergunta: o que é o ser? A partir daí uma série de reflexões buscou orientar o pensamento para a conquista da verdade sobre o ser.

Sócrates defendia a necessidade de despojar a alma de falsos saberes para que o constante exercício da dúvida e da crítica pudesse encaminhar o indivíduo em sua busca pela verdade. Percebam que ele não concede resposta para a pergunta. A sua famosa frase, “só sei que nada sei”, evidencia o quanto o filósofo valorizava a virtude da ignorância, não como motivo para a estagnação, mas como um incentivo para a procura do saber. Setores que querem deslegitimar a ciência não seriam virtuosos ao olhar socrático.

Em suas práticas interrogantes, Sócrates colocou em cheque a decadente democracia ateniense, ao dizer que os cidadãos que participavam de tais decisões políticas não possuíam conhecimento sobre os assuntos que legislavam, era apenas um pretenso e raso saber. É perceptível que tais práticas ainda continuam, pois temos políticos de altos cargos que não sabem governar um país num momento de pandemia.

Ao desafiar esse poder e ser acusado de ofender a moralidade (e os bons costumes, risos) dos cidadãos atenienses, Sócrates foi condenado a morte. Incomodado com tal decisão, Platão, que havia sido discípulo de Sócrates, decide se distanciar de tal situação e se isola com outros alunos em sua própria Academia filosófica.

Na Academia, Platão se dedicou a continuar as reflexões de Sócrates e achar uma resposta para a pergunta “o que é o ser? ”. Ele aprofunda esse debate ao propor o conceito de Dualismo, no qual ele defende a existência de dois mundos: o mundo sensível (local onde vivemos e cujo aspecto é a mudança constante) e o mundo das ideias (local transcendente no qual existe a verdade sobre o ser).

O mundo das ideias, ou mundo do ser, é composto pelos denominadores estáveis e eternos que dão forma a tudo que existe no mundo instável do sensível, ou seja, o que existe em nossa realidade são sombras das verdades existentes no mundo das ideias. A partir de tal colocação, Platão constrói a “alegoria da caverna” (não a descreverei aqui pois tomaria um grande espaço do texto, peço que pesquisem) e defende que para chegarmos ao conhecimento verdadeiro, devemos contestar nossa condição de prisioneiros e o que nos é mostrado dentro da caverna, para que, ao fugir, consigamos aproveitar da melhor forma o mundo exterior (ideias).

Aqui apresento a nossa realidade atual, o isolamento, como o Dualismo de Platão. O que vivemos no mundo “sensível” de nossas casas (o medo, a incerteza, a tentativa de socializar com nossos familiares, a fraca sensação de segurança) é direcionado pelo que ocorre em nosso mundo do “ser” exterior (a pandemia, as desigualdades sociais, a falta de habilidade de diversos políticos). Entretanto, não defendo a saída imediata de nosso “aprisionamento”, prego pelo seu aproveitamento para que a liberdade ganhe maior significado.

Diversos indivíduos desenvolveram coisas incríveis, e se autodesenvolveram, ao ficar em isolamento devido a peste bubônica na Europa. Shakespeare escreveu grandes obras numa quarentena no início do século XVII, como Macbeth e Rei Lear. No século XIV, Boccaccio escreveu uma das principais obras literárias do Renascimento: O Decamerão. Na segunda metade do século XVII, Isaac Newton produziu importantes trabalhados que deram início à construção da Teoria da Gravidade. No século XX, a quarentena ocasionada pela epidemia de Gripe Espanhola influenciou as obras do pintor Edvard Munch após o mesmo contrair a doença,

Porém, se você não produzir nada, não se preocupe, pois a pressão gerada pela pandemia afeta fortemente nosso emocional e, para isso, tenho a seguinte sugestão: haja como um filósofo cínico.

A filosofia cínica nasceu com Antístenes (445 a. C. – 365 a.C.), um dos discípulos de Sócrates. Ela consistia no desprendimento dos bens materiais e a valorização da eudaimonia (felicidade), estágio a ser alcançado pelo desenvolvimento da alma e pela harmonia com sua verdadeira forma de ser. Ou seja, deite, relaxe e faça aquilo que lhe der vontade. Não cobre uma produção constante, use esse tempo para descobrir talentos e desenvolver habilidades outrora esquecidas.

Um dos alunos de Antístenes, Diógenes (412 a.C. – 323 a. C.), foi responsável por radicalizar a filosofia cínica. Fez da pobreza a sua extrema virtude ao morar dentro de um barril e carregar apenas o que precisasse. Assim ele buscou se conectar com a natureza e com seu verdadeiro ser.

É narrado que, certa vez, Diógenes foi procurado por Alexandre, o Grande (356 a.C. – 323 a.C.). Em busca de sabedoria, Alexandre ofereceu ao filósofo qualquer coisa que ele desejasse, visto que o seu império era um dos mais poderosos do período. O pedido de Diógenes foi que o imperador saísse da frente pois estava atrapalhando seu “banho de sol”.

Os cínicos também tinham o aspecto de criticar qualquer pacto social, visto que isso poderia ser uma má influência ao desenvolvimento de sua alma. Tal característica levou ao significado contemporâneo do termo: “aqueles desprovidos de qualquer sentimento de generosidade e preocupação em relação à dor do outro”. Acredito ser possível citar nesse momento o cinismo bolsonarista, e de seus asseclas, diante de inúmeras evidências científicas do perigo do COVID-19. Eles realizam movimentos pelo fim do isolamento e são apoiados pelo próprio presidente, que com certeza deve desconhecer a raiz desse cinismo.

Enquanto a casa funcionar como a sombra da sociedade (ou assombrada por ela), precisaremos nos apegar à nossa caverna para que as medidas tenham efeito positivo e a gente consiga sair e perceber que o ser humano, em sua essência, é um ser que necessita ser sociável. Então peço encarecidamente às pessoas que vão contra a quarentena e fazem passeatas medíocres pelo fim do isolamento: sejam como o reflexivo Diógenes e apreciem o sol de suas cavernas.

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