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A “tribunalização” das redes sociais: os casos “Ronaldinho” e “Drauzio”


A democratização do acesso à internet veio com a bela promessa de que todos os navegantes iriam conviver de forma harmoniosa e em constante construção e busca pelo conhecimento. No entanto, tal qual a rápida ascensão da internet no mundo contemporâneo, a queda dessa perspectiva foi ainda mais veloz.

As procuras por informações rápidas geraram a diminuição do senso crítico, a desinformação ocasionou o compartilhamento de diversas Fake News, termo muito utilizado pelas análises atuais. Recentemente, o que me provocou a reflexão a respeito dessa democratização dos meios informacionais: a construção de um Supremo Tribunal nas Redes Sociais.

Antes de discorrer sobre as minhas reflexões a respeito do tema, trago dois casos que provocaram muitas discussões na mídia e nas redes nas últimas semanas: a prisão do jogador Ronaldinho Gaúcho e a matéria do médico Drauzio Varella nas prisões.

O ex-jogador brasileiro Ronaldinho Gaúcho e seu irmão são investigados pela justiça paraguaia por entrarem com documentos de identificação e passaportes falsos no Paraguai. Segundo acordo do Mercosul, para países participantes do bloco, é dispensado a entrada utilizando passaportes. Dessa forma, quais motivos levaram o ex-craque a utilizar documentos falsos? A prisão preventiva foi decretada para dar andamento às investigações, visto que os dois poderiam fugir para o Brasil e o Estado brasileiro não extradita seus cidadãos.

As investigações do caso confirmaram que os irmãos receberam os documentos em Aeroporto paraguaio e levaram ao questionamento dos agentes migratórios, visto que permitiram de entrada dos dois no país com documentos falsos.

De acordo com a matéria do Estadão (2020), “A investigação apura possível esquema de falsificação de documentos. O grupo envolveria funcionários públicos e pessoas do setor privado com o objetivo de obter negócios ilegais e benefícios patrimoniais”. Descobriu-se que foram abertas três contas correntes em nome de Ronaldinho, de seu irmão e de seu empresário e foi depositada uma quantia em dinheiro para agilizar o processo de naturalização paraguaia (mesmo sem eles terem cumprido os pré-requisitos. Não é intrigante?). Entretanto, os investigadores querem descobrir qual a relação de Ronaldinho com a organização criminosa montada para falsificar documentos.

Também é necessário lembrar que Ronaldinho e seu irmão tiveram os passaportes confiscados pelo governo brasileiro no ano de 2018 devido a uma construção ilegal sem licenciamento ambiental em uma área de preservação permanente em Porto Alegre, segundo matéria do G1. Tal medida caracterizou crime ambientou, o que os obrigou a pagar uma indenização de R$ 8,5 milhões. Em 2019, Ronaldinho foi nomeado Embaixador do Turismo Brasileiro pelo governo federal mesmo tendo os passaportes retidos pela Justiça e sendo proibido de renovar os documentos. Situações que nos levantam inúmeros questionamentos.

No caso do médico brasileiro Drauzio Varella, houve a apresentação de uma reportagem veiculada pelo programa global Fantástico com o intuito de mostrar a vida de presas transsexuais em penitenciárias masculinas. Durante a matéria, Drauzio entrevistou diversas prisioneiras a respeito de seu cotidiano nas prisões e, ao conversar com Suzy Oliveria e a mesma dizer que estava há 7 anos sem receber nenhuma visita, o médico a abraçou.

Tal ação provocou uma enorme repercussão nas redes sociais, uma vez que, após a exibição da matéria, o deputado Douglas Garcia (PSL-SP) divulgou que Suzy foi condenada por estupro e homicídio de uma criança de 9 anos na Zona Leste de São Paulo no ano de 2010. O processo já transitou em julgado e a presa está cumprindo sua pena, sem necessidade de linchamento ou julgamento virtual.

As críticas à figura de Drauzio e à reportagem do Fantástico atacavam a Globo de não ter mostrado o crime das prisioneiras e manipulado os espectadores. Em nota, a Globo informou que, por esse não ser o objetivo da matéria, os crimes não foram evidenciados (fator passível de ser condenado, mas que não irei tratar no presente texto). Dias depois Drauzio Varella emitiu uma nota se explicando e dizendo que não conhecia o passado de Suzy e que faz esse trabalho voluntário nas prisões há 30 anos tratando a saúde dos seres humanos e não os seus erros.

O que proponho não é julgar a ação do ex-jogador ou o abraço concedido pelo médico, mas colocar em crítica as manifestações das redes sociais sobre os dois casos. É perceptível que os posicionamentos nas redes assumem um caráter judicial visto que colocam em audiência a ação dos dois indivíduos, com direito a defesa ou criminalização das ações.

A “tribunalização” pode ser vista sob ótica das teorias do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) a respeito da constituição do poder e das relações de poder. Em sua obra Microfísica do Poder (1979), Foucault discorre, em diversos artigos de sua autoria ou entrevistas concedidas, sobre como os sujeitos são moldados pelo poder e, ao mesmo tempo, são adestrados a desejarem fazer parte e perpetuar essas práticas de controle.

Percebo nas redes sociais justamente essas características de constituição de poder e adestramento dos sujeitos: cidadãos se auto intitulando juízes de acontecimentos, sem conhecer o todo ou até a legislação brasileira. Em conversa com meu amigo Rodrigo Quintino, também colunista pela Gradus na área de “Cinema”, concluímos que nessas ações reside um discurso de ódio disfarçado de opinião crítica e jurídica sobre os fatos.

Para o “caso Ronaldinho”, temos a defesa instituída por meio de memes, nos quais mostram o ex-craque em campeonato na prisão ou até a substituição do rosto de Adam Sandler pelo de Ronaldinho no pôster do filme Golpe Baixo (2005) – um jogador de futebol americano é preso por estar dirigindo bêbado. No entanto, o que mais me provocou incomodo foi a leitura da seguinte frase no Facebook: “o Paraguai podia soltar o Ronaldinho. O governo sabe que ele não é bandido”. Me questiono: como o cidadão pode realizar tal absolvição sendo que não é investigador, júri e não está presente no local? A fama é sinônimo de índole pura?

Para o “caso Drauzio”, temos um ataque intenso ao banco do réu. Mas, qual o réu nessa situação? Nem os internautas sabem definir ao certo. Criticam a Globo por omitir informações, criticam Drauzio por dar o abraço num estuprador já julgado e criticam pessoas que se solidarizaram com a condição da prisioneira. Acredito que o debate não é realizado para que se chegue a algum lugar, mas apenas para expor o discurso de ódio, julgar com base nele e encarcerar a ameaça que o Outro exerce aos particulares “valores éticos” que os juízes virtuais possuem.

Drauzio, em seu pedido de desculpas, diz que entrou na penitenciária enquanto médico, e não como juiz, fator preponderante em seu cumprimento do juramento ético realizado ao escolher sua profissão. Que mais pessoas tenham consciência de sua pequenez nas redes sociais e percebam que não são juízes, mas apenas um algoritmo.


Referências

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

FOLHA DE SÃO PAULO. Trans abraçada por Drauzio na TV foi condenada por estupro e morte de criança. Folha de São Paulo. São Paulo. 09 mar. 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/03/trans-abracada-por-drauzio-na-tv-foi-condenada-por-estupro-e-morte-de-crianca.shtml. Acesso em: 15 mar. 2020.

G1. Justiça do Paraguai determina manutenção da prisão de Ronaldinho Gaúcho e Assis em caso de passaportes falsos. G1. São Paulo. 07 mar. 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/03/07/justica-do-paraguai-determina-prisao-preventiva-de-ronaldinho-gaucho-e-assis-em-caso-de-passaportes-falsos.ghtml. Acesso em: 15 mar. 2020.

G1. Ronaldinho Gaúcho é investigado por suspeita de uso de passaporte falso no Paraguai. G1. São Paulo. 05 mar. 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/03/05/ronaldinho-gaucho-e-detido-no-paraguai.ghtml. Acesso em: 15 mar. 2020.

O ESTADO DE S. PAULO. Após revelação de crime, detenta trans, Drauzio Varella e Globo se manifestam. O Estado de S. Paulo. São Paulo. 09 mar. 2020. Disponível em: https://emais.estadao.com.br/noticias/comportamento,detenta-trans-drauzio-verella-globo-se-manifestam,70003226135. Acesso em: 15 mar. 2020.

PERRONE, Ricardo. Advogados de Ronaldinho e Assis apresentam novo recurso à Justiça paraguaia. UOL. São Paulo. 12 mar. 2020. Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2020/03/12/advogados-de-ronaldinho-e-assis-apresentam-novo-recurso-a-justica-paraguaia.amp.htm. Acesso em: 15 mar. 2020.

RAMOS, Raphael. Prisão de Ronaldinho Gaúcho provoca devassa no governo paraguaio. O Estado de S. Paulo. São Paulo. 12 mar. 2020. Disponível em: https://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,prisao-de-ronaldinho-gaucho-provoca-devassa-no-governo-paraguaio,70003230696. Acesso em: 15 mar. 2020.

RIBEIRO, Fernanda Teixeira. Críticas a Drauzio revelam "lado B" da empatia, diz neurocientista. UOL. São Paulo. 10 mar. 2020. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/03/10/criticas-a-drauzio-varella-por-abraco-em-trans-revelam-lado-b-da-empatia.htm. Acesso em: 15 mar. 2020.

TIGRE. Facebook fabrica juízes. apud NUNES, Rodrigo. Um Tribunal de Exceção chamado Redes Sociais. 2017. Disponível em: https://rodrigonunez.jusbrasil.com.br/artigos/417624066/um-tribunal-de-excecao-chamado-redes-sociais. Acesso em: 17 mar. 2020.

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