As serpentes do caduceu

“Diz-se que há no cinema uma tradição Méliès e uma tradição Lumière [...]”. – Alain Resnais.



As serpentes do caduceu remetem as religiões Greco/Romanas, nas quais eram atribuídas a Hermes/Mercúrio, deus mensageiro e do comércio. Símbolo com múltiplos significados, que adquire novos de acordo com o contexto histórico-sócio-cultural no qual é apropriado, para Resnais (1969) serve de forma metafórica ao surgimento do cinema, na França. O famoso diretor, precursor da Novelle Vague, descreve o folclórico encontro entre os irmãos Lumière e George Meliès, os apontando como os patriarcas das duas principais tradições que se desenvolveram na cultura cinematográfica: Lumière e a realista; Meliès e o cinema fantástico (ou formalista, pois estaria preocupado em moldar a forma do filme através de artifícios e elementos narrativos, para contar uma história). Como as serpentes, duas cabeças diferentes que partem de um ponto em comum.

Para André Bazin, a vocação do cinema como captura fiel do real (que contrapõe as artes plásticas, essencialmente subjetivas por depender da perspectiva de um autor) se potencializa após a transição do cinema clássico para o cinema moderno, cujos marcos são o lançamento de Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, e o neorrealismo italiano, possivelmente o mais influente movimento da cinematográfico da história.

Segundo o crítico, a construção de uma mise-en-scène artificializada, a montagem como forma de criação de sentido da obra, e a interpretação dos atores, características do cinema realista clássico, seriam formas de manipular a realidade, não cumprindo o objetivo e a potencialidade real do cinema, de captura-la tal como ela é. Nas palavras de Bazin:

"Como o desaparecimento do ator é o resultado de uma ultrapassagem do estilo da interpretação, o desaparecimento da mise-en-scène é igualmente o fruto de um progresso dialético no estilo do relato. Se o evento basta a si mesmo sem que o diretor tenha necessidade de esclarecê-lo com ângulos ou arbitrariedades da câmara, é porque ele conseguiu chegar àquela luminosidade perfeita que permite à arte desmascarar uma natureza que afinal se parece com ela." (BAZIN, 1991, p.274).

Moraes, a respeito da teoria de Bazin, aponta que:

“a credibilidade da obra está intrinsecamente relacionada ao seu valor como registro documental para que se torne uma verdade na imaginação, a autenticidade depende de acreditarmos na representação exposta na tela.” (MORAES, 2010).

A realidade carregaria, para ele, uma ambiguidade que força a reflexão e participação ativa do espectador. Tal ambiguidade seria desfeita pela manipulação da montagem, forçando um sentido único e, consequentemente, a passividade do espectador.

De fato uma vez produzida, uma obra de arte extrapola a intenção ou mensagem inicialmente pensadas por seu autor, ganhando novos significados na relação com variados espectadores (BARTHES, 2004). Um mesmo filme pode dialogar e transmitir ideias totalmente diferentes ao ser assistido por duas pessoas em contextos e com histórias de vida distintas. O grande problema do apontamento de Bazin reside na afirmação que tal ambiguidade partiria de um registro fiel do real.

Afinal, existe registro fiel do real?

A resposta "sim" parece estar presente, mesmo inconscientemente, na mentalidade de muitos espectadores. Quantos de nós já nos pegamos comentando coisas como “isso não é plausível”; “isso nunca aconteceria na vida real”; ou, em caso de filmes que retratam algum período histórico do passado “isso não está fiel ao que aconteceu”. O cinema contemporâneo, como aponta Philippe Leão (2019), vive um período de hiper-realismo, no qual as obras, mesmo de fantasia, buscam em sua estética e narrativa se aproximar ao máximo da realidade do mundo histórico e sensível, causando maior familiaridade e fácil identificação do espectador.

O grande problema de tal característica é a falsa ideia de realidade por ela causada. O filme, por mais realista estética e formalmente que se proponha a ser, nunca conseguirá retratar a realidade em si, ao contrário, propõe uma releitura e uma representação dessa, influenciado pelo contexto histórico, social e político de sua produção, bem como pela visão de mundo e as inclinações ideológicas de seu realizador (VANOYE; GOLIOT-LETE, 1994).

A suspensão da descrença, que parece estar morrendo por essa tradição hiper-realista, é essencial para a experiência de assistir a um filme, uma vez que “[...] toda narrativa é uma mentira [...] até o mais hiper-realista dos filmes hiper-realistas, também vai ser uma mentira” (LEÃO, 2019). Filmar algo sem artifícios de montagem, fotografia ou outros elementos narrativos, já pressupõe uma escolha do diretor, uma visão específica sobre a realidade, de modo que a aparente distinção entre cinema e artes plásticas proposta por Bazin se torna infundada, afinal “a ambigüidade, ou a multiplicidade de sentidos, é, nos filmes, mais um produto de uma formulação discursiva do cineasta do que um dado natural da imagem” (RESENDE FILHO, 2010).

Para Bill Nichols (2019) o cinema de ficção, por mais realista que se proponha a ser, ainda é uma alegoria da realidade, de modo que podemos absorver características do mundo histórico, porém nunca assumir que o mundo histórico é o que está representado fielmente em tela.

Mesmo o cinema de documentários, tomado pelo senso comum como uma apresentação fiel de fatos e acontecimentos do mundo real, se insere nessa ideia. O filme, envolto em uma narrativa, não pode ser encarado como um retrato da realidade tal como ela é, antes, mesmo tratando do mundo histórico não alegoricamente, se diferenciando do cinema de ficção, possui uma perspectiva específica sobre o acontecimento apresentado (NICHOLS, 2016).

A distinção entre as duas cabeças da serpente é muito mais nebulosa do que parece.

Tendo dito isso, antes de criticarmos aquele filme inverossímil; o drama histórico que não é historicamente preciso; ou o documentário que não é isento politicamente, talvez seja interessante nos fazermos a seguinte pergunta: Afinal, existe retrato fiel do real?

Referências:


Filmografia citada:

Cidadão Kane. Direção: Orson Welles. Produção: Orson Welles e George Shaefer. Estados Unidos da América: RKO, . c1941.


Bibliografia:

BARTHES, Roland. A morte do autor. In: BARTHES, Roland. O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

BAZIN, André. O Cinema - Ensaios. São Paulo: Brasiliense, 1991.

MORAES, Marcelo Félix. O Contraste entre o Formalismo de Eisenstein e o Realismo de Bazin. RUA, 15 de nov. de 2010. Disponível em: <http://www.rua.ufscar.br/o-contraste-entre-o-formalismo-de-eisenstein-e-o-realismo-de-bazin/>. Acesso em 09 de abr. de 2020.

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2016.

RESENDE FILHO, Luiz. Realismo e Neo-Realismo em André Bazin. Contracampo. Disponível em: <http://www.contracampo.com.br/01-10/andrebazin.html>. Acesso em: 09 de abr. de 2020.

RESNAIS, Alain. As serpentes e o caduceu. In: GRÜNNEWALD, José Lino (Org.). A ideia do cinema. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p. 117-121

VANOYE, Francis; GOLIOT-LETE, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. Campinas: Papirus, 1994.

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