Coronavírus – tragédia ou farsa?

Recentemente, para me distanciar um pouco dos afazeres acadêmicos, decidi relaxar com a leitura da coletânea das histórias do detetive britânico Sherlock Holmes que possuo em minha estante. Num certo romance (“O Signo dos Quatro”), veio o espanto. Quando me deliciava com essas histórias na adolescência eu jamais notei o forte teor imperialista e orientalista existente na escrita de Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930). Perdoo a minha falha, porque o período antecedeu a minha graduação em História e, atualmente, não me permito cometer esse erro. O leitor deve estar se perguntando o que o título tem a ver com o detetive. Logo responderemos esse questionamento.

O Imperialismo, também conhecido por Neocolonialismo, ocorreu no século XIX (com diversas vertentes historiográficas estendendo tal prática a boa parte do século XX) e foi comandado pelos países Ocidentais em direção à África e ao Oriente, nos territórios da China, Índia e Japão, por exemplo. Qual o objetivo? Proporcionada pela Segunda Revolução Industrial, a prática imperialista buscou novos mercados consumidores, adquiriu novas matérias-primas e almejou estender o controle imperial por meio da dominação política ou de intervenção direta, tendo na Inglaterra seu principal expoente (agora percebo o motivo dos romances de Holmes serem carregados de tais características). Essas ações foram responsáveis por provocar um forte choque cultural nesses países, o que ocasionou a criação de diversos estereótipos que perduram até a atualidade.

No entanto, não há como falar de Imperialismo sem citar os escritos do intelectual e ativista político palestino Edward Said (1935-2003). Em seu livro Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente, Said se dedicou a analisar como os países Ocidentais, responsáveis por executar o Imperialismo, construíram em seus escritos e literaturas visões simplistas, depreciativas e repletas de estereótipos sobre os países Orientais, conceito que ele concede o nome de Orientalismo. Ele aborda o papel da ciência europeia, mais especificamente Inglaterra e França, na construção de representações sobre o Oriente que começaram a transitar pela Academia do período. Dessa forma, é possível perceber que as imagens são fundamentadas pelas relações de poder proporcionadas pelo Imperialismo e que o Oriente não é, em sua essência, as perspectivas do Orientalismo.

Para Said, esses discursos devem ser analisados para que se identifique nas estruturas suas intenções, ou seja, é possível perceber um intercâmbio de influências entre cultura, conhecimento e política, o que nos faz verificar as formas de legitimar o domínio europeu, uma vez que se pregava que os costumes Ocidentais eram “superiores” aos Orientais. Quais os motivos de se dizer que os árabes são violentos? Ou que a Índia é exótica? Ou dizer que na culinária chinesa estão presentes cachorros e morcegos? Este último bem contemporâneo e foco central deste texto.

Quando o Covid-19, popularmente conhecido como “Coronavírus”, começou a se espalhar, correu junto a desinformação de que o mesmo teria se originado da sopa de morcego. Segundo as notícias de órgãos da mídia internacional e nacional – como BBC, El País, Folha de SP, Estadão – o governo chinês anunciou a descoberta do Coronavírus no final de 2019 e, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), é desconhecida a origem dessa série de casos de pneumonia. Então, como a sopa de morcegos entrou para o senso comum enquanto principal fator de causa?

Sustento que a existência de perspectivas Orientalistas ainda é latente. Mesmo após informações que idosos, ou aqueles que possuem outras condições de saúde (asmáticos, cardíacos e diabéticos) configuram um grupo mais vulnerável à infecção pelo Coronavírus, e que o referido vírus não possui incidência de ser totalmente mortal, o alarde causado pela desinformação aconteceu em diversas partes do mundo. No Brasil não seria diferente.

Surtos de dengue ocorrem em todo o território nacional – na região de Bauru há uma grande quantidade de casos e que são mais mortíferos que o Coronavírus – e o sarampo voltou a se espalhar pelo país mesmo com vacinas disponíveis, não impedem que a população fique altamente preocupada com uma doença vinda do Oriente e construa estereótipos sobre a mesma.

Se o Orientalismo no século XIX ocorre enquanto tragédia por ser fruto da política de dominação Imperialista, hoje ele é a maior farsa visto que a rede possibilita que fiquemos bem informados sobre os mais diversos assuntos. Preguiça ou apenas ignorância? Pelo andar do processo, temo que seja um pouco dos dois.

Em matéria recente, o Estadão nos apresentou que em apenas 48 horas desde a confirmação do primeiro caso brasileiro de infecção pelo novo Coronavírus, pesquisadores brasileiros conseguiram sequenciar o genoma do vírus que chegou ao País. A euforia em parabenizar a ciência brasileira não é igual a euforia irracional causada pela difusão do vírus. Tais descobertas permitem que vacinas comecem a ser testadas, no entanto, isso nos leva a outro problema: quando descobertas, como será a distribuição de tal vacina? Apenas para pessoas que “frequentam” o Hospital Albert Einstein ou o SUS dará conta? Tais questões podem esperar para serem discutidas.

Segundo publicação da BBC Brasil, não é necessário evitar comida chinesa ou parar de comprar produtos do país, visto que é improvável que o vírus sobreviva muito tempo fora do corpo humano. A OMS ainda não declarou pandemia – surto de doença que ocorre numa grande área geográfica e afeta um gigantesco número de pessoas –, embora o Coronavírus tenha se espalhado por vários países. Portanto podemos ficar tranquilos, pedir comida chinesa pelo Ifood e adquirir os últimos lançamentos da marca chinesa Xiaomi.


Referências

BBC BRASIL. Coronavírus: 5 coisas que você precisa saber. BBC Brasil. São Paulo. 26 fev. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51394578?fbclid=IwAR2Jtg70CWAqpDyMcypQzx9UTFjZXNWBgXtqu1Wd_Zu3ou_r08f3fBgEyXI. Acesso em: 28 fev. 2020.

DOYLE, Sir Arthur Conan. Sherlock Holmes: volume 1, romances. São Paulo: Martin Claret, 2014.

GARCÍA, Jacobo. Coronavírus na América Latina: poucos casos e muita preocupação. El País. Madri. 01 mar. 2020. Disponível em: https://brasil.elpais.com/sociedade/2020-03-01/coronavirus-na-america-latina-poucos-casos-e-muita-preocupacao.html. Acesso em: 01 mar. 2020.

GIRARDI, Giovana. Pesquisadores brasileiros sequenciam genoma do coronavírus identificado no País. O Estado de São Paulo. São Paulo. 28 fev. 2020. Disponível em: https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,pesquisadores-brasileiros-sequenciam-genoma-do-coronavirus-identificado-no-pais,70003214162?fbclid=IwAR20FzVFZQHBKNNxUQMW6vOyTnqL3o4VUqiwOCPO0TjzlICH6jf__87nwSY. Acesso em: 28 fev. 2020.

LEMOS, Vinícius. Por que brasileiro com coronavírus passará quarentena em casa? BBC Brasil. São Paulo. 26 fev. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51652924?fbclid=IwAR2LPoYQFpWzi0mq1-D28f42HF5atII1nNtp3LAmR9mAQnI2FpridIaHqFs. Acesso em: 28 fev. 2020.

PINTO, Ana Estela de Sousa. Dois terços dos casos de coronavírus fora da China ainda não foram detectados, diz estudo. Folha de São Paulo. São Paulo. 27 fev. 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/02/dois-tercos-dos-casos-de-coronavirus-fora-da-china-ainda-nao-foram-detectados-diz-estudo.shtml. Acesso em: 27 fev. 2020.

SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2007.

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