Em Tempos de Quarentena

O Coronavírus (COVID-19) chegou pra valer no Brasil e vêm aterrorizando e bagunçando a rotina de boa parte de nós. Pânico e histeria não ajudam nesse momento, mas a precaução é fundamental para que a pandemia venha afetar o menor número de pessoal possível. Grande parte das escolas e universidades já suspenderam as atividades presenciais, e os profissionais que podem, estão trabalhando em casa. A recomendação do ministério da saúde é clara: evitem ao máximo sair de casa.

O assunto, claro, é muito mais complexo do que parece, e não serei hipócrita de ignorar a existência daqueles, trabalhadores de empresas que não podem fazer home Office, autônomos, e os que não têm sequer uma casa para morar (problema esse, que se potencializa ainda mais tendo São Paulo como epicentro da doença). O que podemos fazer para ajudar nessa situação? Tenho pensado muito nisso, e não possuo uma resposta 100% eficaz. Apoiar ONGs que trabalham com moradores de ruas, consumir ao máximo produtos de pequenos produtores e profissionais autônomos, e, claro, para aqueles que podem, ficar ao máximo em casa, são caminhos que, se não servem como caminhão pipa, ao menos contribuem com uma gota ou um copo para apagar o incêndio.

Ficar em casa pode ser uma experiência difícil, e devemos tomar cuidado também com nossa saúde mental. Pensando nisso diversos críticos de cinema vêm publicando recomendações de filmes disponíveis em serviços de streaming, na intenção de contribuir como aqueles de quarentena. Também farei aqui minhas recomendações, porém traçando um caminho um pouco diferente. Não será surpresa, para os leitores que me conhecem há mais tempo, saberem que indicarei filmes nacionais, independentes, de baixo orçamento, e cuja produção se dá por realizadores da nossa região. O audiovisual, como os outros setores, será afetado economicamente. Se em tempos normais apoiar o cinema brasileiro independente é importante, em tempos de quarentena é imprescindível. Dito isso, vamos às recomendações:

Ctlr+Z (2013). Direção: Vitor AC.

“De Volta para o Futuro”; “A Maquina do Tempo”; “Meia Noite em París”; “Questão de Tempo”; “Doutor Who”; “O Homem do Futuro”; “Star Trek” e até “Turma da Mônica – Uma aventura no tempo”. Muitos são os filmes que tratam da famigerada viagem no tempo, com abordagens, temáticas e gêneros totalmente diferentes. É nessa categoria que “Ctlr+Z” se encontra.

O único longa-metragem da lista, dirigido e protagonizado por Vitor AC, acompanha Rafael, um jovem que tem o poder de voltar no tempo em até 3h, esfregando uma tornozeleira mágica que encontrou quando ainda criança. Ninguém, nem Rafael, sabem como a viagem funciona ou porque ela acontece, apenas que funciona. As coisas, no entanto, acabam saindo do controle quando ele perde o objeto mágico as vésperas de uma prova de recuperação de português, um concurso de bandas e uma competição de conhecimentos históricos valendo uma viagem para Roma, tudo ao mesmo.

A jornada de amadurecimento de Rafael é a mesma de muitos jovens: da confiança e inconsequência em achar que pode resolver tudo, a consciência de que nem tudo se pode voltar atrás, e que precisamos arcar com as consequências dos próprios atos.

O filme, obviamente, não é perfeito. Algumas cenas podem soar de mau gosto aos olhos críticos, como a repetida piada com a personagem Jeniffer. No entanto, mesmo os defeitos conferem realismo à obra, uma vez que se as atitudes de Rafael soam exatamente como as que observamos entre adolescentes nas salas de aula. A problematização das cenas deve ocorrer podendo ser utilizadas até mesmo como contraexemplo.

Do ponto de vista técnico, há de se relevar a baixa qualidade do áudio, justificada pelo baixíssimo orçamento da obra. No quesito fotografia, claramente havia por trás das câmeras alguém que sabia o que estava fazendo, com o uso de planos detalhes; tomadas abertas; planos zenitais; e um plano sequencia. Destaca-se também a rima visual utilizada para unir a cena em que Rafael se aproxima efetivamente de Ana (Laura Ronchi), sua vizinha e par romântico, e a que ela descobre sua habilidade de voltar no tempo, ocasionando uma briga entre os dois. O uso do enquadramento mostra os dois portões, evidenciando a proximidade e, ao mesmo tempo, a distância entre as personagens.



Minha curiosidade aguçou para ver o que o diretor poderia fazer com a maturidade e experiência que adquiriu hoje, e com um orçamento um pouco maior. A evolução técnica e temática do diretor, aliás, pode ser observada em seu segundo longa, intitulado “Rota de Colisão”, lançado em 2016, o qual infelizmente não está disponível em plataformas digitais.

Com o tom leve e descontraído, na mesma linha dos clássicos de John Hughes, “Ctlr+Z” se mostra um filme interessante para um publico jovem. Trazendo uma mensagem pertinente sobre amadurecimento e responsabilidade.

Para mim, em particular, e talvez para outros tantos da geração dos anos 90, o filme trás em especial o gosto agridoce da nostalgia, ao remeter a diversos acontecimentos de uma época de descobertas e amadurecimento, onde o tempo livre era maior e mais bem aproveitado, e as preocupações da vida... Sim existiam, mas de uma forma muito diferente.

Relógios Adiantados (2018). Direção: Felipe Cavaca.

Um filme para amantes de história. Relógios Adiantados aborda o processo de transferência de município da extinta Espírito Santo da Fortaleza para Bauru, em 1896.*

Filmado em uma única locação, o filme acompanha a decisão do prefeito e dos cinco vereadores de Espírito Santo, que, em um golpe, decidem adiantar seus relógios em uma hora para votar a mudança da sede do município para Bauru (até então a chamada boca do sertão, o último ponto de “civilização” do Estado) sem maiores transtornos para a população. O único personagem que se opõe a decisão é o jovem vivido por Vitor AC (sim, o mesmo do filme acima), filho do vereador Zé da venda, que nada pode fazer por sua força política quase nula e sua falta de coragem de encarar os perigosos homens que sentam a mesa com ele.

O curta trás em sua mise-en-scene o clima dos westerns clássicos, um acerto gigantesco da direção visto que, embora tenha receios com relação à História comparada, são inegáveis as semelhanças entre a expansão para o oeste paulista e norte-americana. A direção de fotografia é certeira para construir essa estética “faroéstica”, tanto nos enquadramentos, com muitos planos médios, planos holandeses, e plano zenital, quanto na escolha do uso de preto e branco. A trilha sonora também é eficaz ao contribuir para a imersão no clima.



A cenografia, os figurinos e as atuações, também contribuem para a imersão, de modo que, durante os 12m12s, o espectador se sente transportado para o passado, quando grileiros e bugreiros andavam por nossa região, e a ferrovia ainda era sinônimo de futuro e progresso.

Com primor técnico, qualidade narrativa e estilística, e proporcionando grande imersão histórica, o faroeste caipira de Felipe Cavaca merece ser conferido por todos aqueles, fás de John Ford, Sergio Leone, ou simplesmente apaixonados por História.

Se Essa Rua Fosse Minha (2017). Direção: Júlia Von Zeidler.

O último filme, e único documentário indicado, “Se Essa Rua Fosse Minha” acompanha artistas circense que fazem de seu palco, a rua. Com sensibilidade, a obra apresenta um pouco da vida e da rotina de marabalistas e palhaços que atuam nas ruas das cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Bauru.



A escolha por fazer uso de entrevistas sem apresentar o entrevistador ou inserir nenhuma narração, de modo a deixar apenas os entrevistados e a montagem conduzirem a narrativa, ajuda a evidenciar ainda mais o protagonismo e a importância destes na vida das cidades. A montagem é certeira na escolha dos cortes, na construção de ritmo narrativo e na condução da sensibilidade e da delicadeza tão inerentes às personagens entrevistadas. Sensibilidade essa que é potencializada pelos enquadramentos, os movimentos de câmera, e a trilha sonora.

A rua é colocada como o palco mais democrático para um artista, o qual pode e deve se apropriar para conseguir comunicar sua arte de uma forma que transcenda os palcos ou as lonas. Por não estar preparado para assistir a um show, diferentemente de quando vai ao teatro ou cinema, a reação do espectador é apontada como a mais sincera possível.

Outro destaque interessante e que me chamou atenção, é o da simbologia do chapéu. Para além de uma forma de conseguir dinheiro, passar o chapéu é apresentado como um ato simbólico e ritualístico, uma forma de, ao mesmo tempo em que recebe os frutos pelo suor de seu trabalho, se conectar com o espectador.

Além das belezas, o filme não deixa de apresentar as dificuldades e os ‘perrengues’ passados diariamente por essas pessoas. É destacado o preconceito e o machismo presentes nas ruas, a estigmatização da classe artística e a falta de incentivo governamental (que convenhamos, só piorou de 2017 para cá), no entanto, tudo é mostrado sempre de forma sensível, contribuindo para a coerência e leveza narrativa.

“Se Essa Rua Fosse Minha” é uma obra sensível. Ideal para todos os apaixonados pela cultura circense, por artes no geral, para os apaixonados por documentários, ou para os preconceituosos que ainda acham que “artista não trabalha” ou que “o artista de rua está pedindo no semáforo”. Através da linguagem cinematográfica, nos lembra que a arte é essencial na vida de todo ser humano, quer ele perceba, ou não.



*Para conhecer mais sobre História regional de Bauru e a expansão para o oeste paulista recomendo as produções do historiador Edson Fernandes e do jornalista Luís Paulo Domingues, pesquisadores de História regional e autores de diversos artigos e livros.


Filmes indicados, com os links para acesso gratuito no Youtube:

Ctrl+Z. Direção: Vitor AC (2013). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=eQ7uOG5GcO4>.

Relógios Adiantados. Direção: Felipe Cavaca (2018). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=HsgLe0VC8-g>.

Se Essa Rua Fosse Minha. Direção: Júlia Von Zeidler (2017). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=WrD-DgoQrTw>.

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