Entre trabalhar e morrer: a alienação em época de pandemia

Com a pandemia da Covid-19, parte do cenário econômico global sofreu fortes alterações. No Brasil não foi diferente, inúmeros decretos proibiram a abertura de práticas comerciais não essenciais, estimulando que esses trabalhadores fiquem em casa e sigam as determinações de isolamento social recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e também pelo Ministério da Saúde. Na véspera de completar seu décimo dia, o fechamento dos estabelecimentos comerciais começou a provocar furor e indignação por parte do empresariado, que através das redes sociais, ameaçam demitir funcionários caso o isolamento não seja revisto.

Essa massa de empresários e trabalhadores insatisfeitos com o isolamento social tiveram o apoio do Presidente da República, Jair Bolsonaro, que mesmo contrariando todas as ordens técnicas, estimulou-lhes a deixarem o isolamento, exigindo das prefeituras a revogação dessas proibições. Assim, muitas carreatas foram convocadas pelas milícias virtuais da família Bolsonaro, a fim de pressionar os governos municipais, através dos pequenos e médios empresários - também alienados, a se exporem (mas principalmente seus funcionários) aos eminentes riscos do vírus mortal.

A alienação é, antes de tudo, uma forma de relação entre os homens e, ao mesmo tempo, entre os homens e determinados objetos ou coisas que lhes são exteriores. Essa forma de relação não é natural. Ela surge em um determinado momento, no processo do desenvolvimento histórico das sociedades humanas. Embora esse desenvolvimento seja criação e exteriorização dele próprio, o homem é profundamente afetado pelo processo e aliena-se.



"Eu pago teu salário", diz a mensagem de um dos carros da 'carreata', convocada pelas milícias bolsonaristas para sexta-feira (27/03/2020).


O termo alienação, originalmente - e ainda hoje - trata-se de um termo da Psiquiatria que designava uma forma de perturbação, sendo uma perda de consciência ou de identidade pessoal. Hegel usou o termo como significado a apropriação do homem pelo espírito absoluto. Para Hegel, segundo Marx, o ser humano, o homem, é igual à consciência de si.


Toda alienação do ser humano não é, por conseguinte, senão a alienação da consciência de si. (Marx,1844).

Em seus famosos 'Manuscritos da Juventude' (1844), Marx, partindo de Hegel, deu-lhe um caráter e um conteúdo socioeconômico, pelo que o homem perde não apenas a identidade de sim mesmo, a consciência de si, mas passa a pertencer ao objeto, à coisa, ao outro. É ainda, sem dúvida, de uma doença do eu, no sentido psiquátrico, mas com raízes socioeconômicas: uma forma de esquizofrenia mais atenuada, no sentido de que essa alienação não impede o prosseguimento das relações que se estabelecem entre os homens e as coisas, ocultando uma alienação real.

Assim, a alienação, do ponto de vista socioeconômico, é a perda da consciência de si, em virtude de uma situação concreta. O homem perde sua consciência pessoal, sua identidade e personalidade, o que vale dizer, sua vontade é esmagada pela consciência de outro, ou pela consciência social - a consciência do grupo (evidente na problemática em questão). Nesse sentido, a alienação se realiza por dois modos, em primeiro lugar ela assume uma forma aparentemente ativa: o homem tem que trabalhar - o trabalho é assim a principal e fundamental forma de alienação. Em segundo lugar ela assume uma forma passiva: o homem é educado a aceitar o trabalho como forma natural da existência social e não como uma forma alienante histórica, circunstancial - o trabalhador brasileiro aceita sua condição alienada em razão de três pilares fundamentais na dinâmica atual: a culpa, a vergonha e o medo.


REFERÊNCIAS

BASBAUM, Leôncio. Alienação e humanismo. Coleção ensaio e memória. 1a ed: Símbolo. 1977.

7 visualizações