O dia em que Michael Jordan jogou basquete com um coelho

No dia 13/03, ironicamente uma sexta-feira, e a exatos quinze dias da data que escrevo esse texto, Adam Silver, comissário geral da NBA, anunciou oficialmente a paralisação de todas as atividades da liga de basquete mais famosa do mundo, por no mínimo trinta dias. A decisão já havia sido divulgada extraoficialmente no dia 11/03, após Rudy Gobert, pivô do Utah Jazz, testar positivo para coronavírus (COVID-19).


Rudy Gobert atuando pelo Utah Jazz na atual temporada (2019/2020).


As diversas manifestações por parte dos fãs vieram quase instantaneamente. Dentre elas, virou meme a comparação com uma cena específica do filme Space Jam (1996). Na cena em questão o comissário geral da NBA também anuncia o cancelamento dos jogos da temporada, após um ‘vírus misterioso’ ter acometido cinco dos melhores jogadores da época (Muggsy Bogues; Shawn Bradley; Charles Barkley; Patrick Ewing e Larry Johnson).

Quando vi a brincadeira em questão me veio uma vontade gigantesca de revisitar a obra protagonizada por Pernalonga e Michael Jordan. Aproveitando que não teria o tradicional jogo de domingo para assistir, aproveitei para rever Space Jam, e é sobre ele que decidi falar hoje.

Para aqueles que ainda não tiveram o prazer de conhecer essa obra prima da década de 90, aí vai um breve resumo:

Michael Jordan, após três títulos seguidos da NBA com o Chicago Bulls, anuncia que vai se aposentar do basquete para jogar baseball e cumprir a promessa que havia feito na infância para seu falecido pai. Paralelamente um grupo de pequenos alienígenas que trabalham em um parque de diversões no espaço quase falido e são explorados por seu patrão, viajam para terra a fim de escravizar os Looney Tunes e leva-los como novas atrações para atrair clientes.

Desafiados por Pernalonga para um jogo de basquete, as pequenas criaturas decidem roubar o talento de astros da NBA (daí a cena que virou meme), se tornando monstruosas superestrelas, intitulados Monstars. A trupe da Warner Bros., notando a enrascada que se metera, decide recorrer a ajuda do maior jogador de basquete de todos os tempos: Michael Jordan!

O filme foi, e ainda é, massacrado pela crítica, e de fato tem muito mais defeitos do que se pode perceber quando criança: A única personagem feminina com destaque é super sexualizada; a atuação do grande astro é sofrível (é impossível saber se ele se sai pior atuando ou jogando basebol); os Looney Tunes não tem a atenção que merecem; e o roteiro tem como principal objetivo a propaganda de um tênis.

Tudo isso é verdade, e o último apontamento ainda pode engatilhar uma grande discussão sobre a natureza da arte e a polemica de torna-la utilitarista (ainda escrevo sobre isso), mas (e, admito, talvez seja a nostalgia agindo sobre mim, ainda escrevo sobre isso também) serei obrigado a defender essa maravilhosa-péssima obra.

A primeira, e mais óbvia qualidade é a trilha sonora. Quase todas originais, as músicas de Space Jam são simplesmente incríveis, incluindo a icônica I belive I can fly, vencedora do Grammy de melhor trilha sonora e uma das canções mais conhecidas, reproduzidas e parodiadas no cinema no séc. XXI.

Continuando, o fato de Space Jam ser assumidamente um grande merchandising de tênis acaba, ao contrário do que parece, jogando a seu favor. Polêmicas conceituais à parte, o filme assume descaradamente seu teor propagandístico, não o tenta esconder; disfarçar; minimizar; subliminar, nem nada do tipo. Ao contrário, incorpora as propagandas a própria linguagem, utilizando-as como recursos narrativos ao construir situações humorísticas com elas.

Outro ponto, relacionado, inclusive, ao supracitado, reside na metalinguagem. As animações tem plena consciência que são animações e participam de programas de televisão. Pernalonga quebra constantemente a quarta parede e conversa com o espectador. Há, em certo momento, uma clara referencia a Pulp Fiction (1994). E claro, serie impossível não mencionar a famosa cena, no clímax, com Bill Murray, na qual ele aparece magicamente, uniformizado, no jogo, exatamente no momento em que a equipe precisava de um quinto jogador, em um perfeito exemplo de Deus ex-machina. O vilão, indignado, profere: “ei, eu não sabia que o Dan Aykroyd estava nesse filme!”, e Bill, por sua vez, rebate argumentando que era amigo do roteirista.

O exemplo de Murray também serve para exemplificar outra qualidade: a autoconsciência da pastelagem. Em nenhum momento, com exceção, talvez, a cena inicial, Space Jam, tenta minimamente ser ou se vender como um filme sério. Ele é uma comédia pastelão e se assume como comédia pastelão. O fato da resolução de um Deus ex-machina com “eu sou amigo do roteirista” subverte o erro, o tornando parte da narrativa fílmica e contribuindo para a unidade estilística da obra.

Acima de todas essas, a maior qualidade de Space Jam, a meu ver, reside no fato de ter apresentado o basquete e a NBA para toda uma geração, em uma época na qual a internet ainda era terra pouco explorada. Não são poucas as crianças dos anos 90 e 00 que, assim como eu, cresceram assistindo o dia em que Michael Jordan jogou basquete com um coelho, e venceu alienígenas, e, à partir disso, se apaixonaram pelo esporte da bola ao cesto, influenciando seus gostos, personalidade e modo de vida. Afinal, o esporte, assim como a arte, é essencial para a vida humana.


Enterrada do meio da quadra de Michael Jordan, no segundo final da partida entre o TuneSquad, time dos Looney Tunes, e os Monstars.


Em síntese, revisitar Space Jam depois de adulto pode revelar uma série de defeitos, como também trazer a tona uma série de qualidades, que passam despercebidos pelo olhar de uma criança. Ou talvez isso seja apenas um fã nostálgico tentando defender o indefensável.

Ah! E quanto a Rudy Gobert? Bem, no mesmo dia em que escrevo o texto (27/03), foi anunciado que ele está totalmente recuperado.

Referências:

Space Jam – O jogo do século. Direção: Joe Pytka. Produção: Daniel Goldberg. Roteiro: Leo Benvenuti, Steve Rudnick, Timothy Harris, Herchel Weingrod. Estados Unidos da América: Warner Bros. C1996.


Notícias sobre o cancelamento da NBA:

Comissário da NBA estipula tempo mínimo de pausa por conta do coronavírus e cogita cancelamento da temporada!. Sportbuzz. 13 de mar. de 2020. Disponível em: < https://sportbuzz.uol.com.br/noticias/basquete/comissario-da-nba-estipula-tempo-minimo-de-pausa-por-conta-do-coronavirus-e-cogita-cancelamento-da-temporada.phtml>. Acesso em: 27 de mar. de 2020.

NBA suspende a temporada após atleta testar positivo para o coronavírus. Esporte Interativo. 11 de mar. de 2020. Disponível em: < https://www.esporteinterativo.com.br/outrosesportes/NBA-suspende-a-temporada-apos-atleta-testar-positivo-para-o-coronavirus-20200311-0043.html>. Acesso em: 27 de mar. de 2020.


Críticas de Space Jam:

CORREA, Yuri. Space Jam: O jogo do século. Papo de cinema. Disponível em: < https://www.papodecinema.com.br/filmes/space-jam-o-jogo-do-seculo/>. Acesso em: 27 de mar. de 2020.

FALDON, Gustavo. 20 anos do lançamento de Space Jam e a importância do filme na popularização da NBA. ESPN. 15 de nov. de 2016. Disponível em: < http://www.espn.com.br/blogs/nbanaespn/647421_20-anos-do-lancamento-de-space-jam-e-a-importancia-do-filme-na-popularizacao-da-nba>. Acesso em 27 de mar. de 2020.

HONORATO, Roberto. Crítica | Space Jam: O jogo do século. Plano crítico. 2 de mar. de 2018. Disponível em: < https://www.planocritico.com/critica-space-jam-o-jogo-do-seculo/>. Acesso em: 27 de mar. de 2020.

VILLAÇA, Pablo. Space Jam – O jogo do século. Cinema em cena. 6 de jan. de 1997. Disponível em: < http://cinemaemcena.cartacapital.com.br/critica/filme/6970/spacejam-o-jogo-do-seculo>. Acesso em 27 de mar. de 2020.

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