O engatinhar de nosso jovem patriotismo na atual crise do Covid-19

Atualizado: Mar 28


Tempos de quarentena e isolamento fazem as ideias fervilharem. Meditações filosóficas ocorrem com mais frequência, como meu recente questionamento acerca de Sócrates ser a personificação do “mundo das ideias” de Platão – paranoias de um jovem filósofo que precisa estudar mais. As famílias voltaram a conversar; por obrigação, já que não podem fugir de tal situação, ou por que redescobriram a beleza do contato familiar? Breves reflexões no meio de tantas que o tempo indeterminado de quarentena irá nos proporcionar.

Neste período em que me encontro em home office – felizmente a minha escola possui recursos para garantir tal prática, mas me incomoda saber que existem instituições que não possuem e que existem pessoas que não podem ter o luxo de ficar em casa – os pensamentos estão a todo vapor e a disciplina para realizar as tarefas precisa ser maior do que nunca, visto que a tentação de ficar na cama é quase irresistível.

Para cumprir a rotina, meu final de semana foi dedicado a preparação de aulas e, para complementar os conteúdos que seriam enviados aos alunos, assisti novamente dois filmes: O Patriota (2000) e Maria Antonieta (2006). O intuito é enviar essas duas obras com atividades para que os alunos aproveitem a quarentena relaxando, mas também não se esqueçam dos estudos.

Ao assistir esses dois filmes, comecei a me questionar sobre as noções de patriotismo – àquele amor pelo país em que se vive – que ambos transmitem, seja no processo de Independência norte-americano ou nos indícios de uma iminente Revolução na França, e refleti sobre como a ideia de Nação e Identidade foi construída na Independência do Brasil (1822), na Proclamação da República (1889) e ao longo do século XX e XXI.

O Patriota nos traz como a Independência dos Estados Unidos foi realizada em forma de luta contra a austeridade empregada pela metrópole inglesa. O aumento de impostos e o arrocho colonial, em conjunto com as ideias iluministas de liberdade, foram fatores preponderantes para criar nos colonos a vontade de se libertar do controle da Inglaterra e construir a identidade de uma nação.

Ao longo do filme vemos que o sentimento de liberdade é estruturado a partir do enaltecimento de símbolos nacionais, como a bandeira norte-americana empunhada por Mel Gibson (personagem principal) no campo de batalha e pela citação da figura quase sacralizada de George Washington. Mas, como toda a beleza construída com interesses nos discursos e sem o fundamento de ser sublime, a Independência dos Estados Unidos se mostra incoerente quando olhamos para seu ideal de “igualdade” que fora pregado durante o conflito.

A escravidão não foi abolida e apenas os escravizados que lutaram receberam a promessa de liberdade. Foi necessária a Guerra Civil Americana (1861-1865) para unificar os estados e garantir a liberdade dos escravos.

Antes da pandemia do Covid-19, o presidente Donald Trump, apoiado pela elite branca, realiza suas políticas contra estrangeiros em seu país para garantir que a pátria seja protegida por um muro. Penso que tal pandemia caiu como uma luva nas intenções de Trump, ainda que ele tenha desacreditado da situação no início e agora precise implantar medidas para ajudar a população. A igualdade entre pessoas no território americano se reduz às palavras de seus governantes e não em ações efetivas, entretanto, mesmo com essas problemáticas, o patriotismo norte-americano é inegável.

Em Maria Antonieta, a situação se mostra um pouco diferente. Aqui não somos apresentados à luta popular como acontece no filme anterior, mas a nossa perspectiva é de dentro da nobreza absolutista francesa e como a mesma era corrompida pelos excessos do luxo.

Ao invés de odiarmos a França por suas medidas violentas realizadas contra o povo – tal qual nos mostra O Patriota e nos faz repudiar a Inglaterra –, Antonieta cria um sentimento de repulsa à nobreza ao nos mostrar a sua vida “desregrada” e seus constantes gastos absurdos com roupas, jóias e festas.

Aos poucos a situação vai se tornando insustentável, a França entra em crise econômica devido aos gastos excessivos e auxílio na Independência dos Estados Unidos (ajudou porque era grande rival da Inglaterra). O povo começa a passar fome e reivindicar melhorias sociais. O filme termina citando a tomada da prisão política conhecida como Bastilha no dia 14 de julho de 1789 e os nobres tentando fugir da França, movimento conhecido como “Grande Medo”.

Qual a lição a ser aprendida? O povo, ao não ter suas necessidades atendidas, se revolta contra o governante mais despótico e se une em função de um bem maior. A Revolução Francesa marca o início dos Estados Nacionais do século XIX e, mesmo que a burguesia tenha assumido o período final da Revolução, a participação popular ao longo do processo foi importante e criou um sentimento de luta pela pátria contra governantes que tentem manchá-la.

Ano passado, o presidente francês Emmanuel Macron sofreu diversas manifestações contrárias dos chamados “coletes amarelos” (com direito a destruição de asfalto) porque seu governo aumentou os impostos. Na crise do Covid-19, o governo francês suspendeu a necessidade de pagamento de contas de água, luz e gás. Tal fator evidencia que em benefício da saúde do povo, Macron está atento às necessidades populares, pois, há 231 anos atrás, governantes que não prestaram essa atenção foram guilhotinados.

Se no caso dos Estados Unidos a construção do patriotismo criou um sentimento de aversão aos estrangeiros, e no caso francês há uma repulsa por governantes que não respeitam as necessidades do povo, como ele se comporta no Brasil?

No caso brasileiro, houveram diversas tentativas de construção de um ideal patriótico a partir dos interesses das elites. A Independência em 1822 foi realizada pelo medo que as elites possuíam de o Brasil ser recolonizado por Portugal. Para isso, a figura de D. Pedro I foi fundamental para conciliar os interesses dessas


elites, isolar e reprimir as lutas dos setores populares, fator que faz o Brasil ser um país monárquico entre as diversas Repúblicas da América do Sul.

No momento de Proclamação da República (1889) há novamente um foco na identidade nacional. O golpe contra D. Pedro II é realizado e a elite republicana coloca no poder o marechal Deodoro da Fonseca, seguido de Floriano Peixoto, para que o novo regime seja consolidado. Para atuar na mentalidade popular, são propagadas pinturas de Tiradentes enquanto herói da Independência e contrário à monarquia. Sua associação à figura de Jesus não é mero acaso e, enquanto alguns governos tentam manipular o povo por meio da arte, outros utilizam o Twitter. Cria-se a ideia de que ser patriota é apoiar essa nova República construída pela elite brasileira.

Fator que não se altera na atualidade. O movimento trazido por Bolsonaro, de um patriotismo baseado em militarismo e no enaltecimento da “família tradicional brasileira” vai contra tudo o que o Brasil de fato é. Se mostra insuficiente, porque o Regime Militar (1964-1985) deixou chagas em nossa sociedade, fazendo


com que poucos apoiem sua volta. A família tradicional brasileira é fundamentada pelo ideal de família cristã, o que desconsidera a pluralidade de sujeitos que existem no Brasil, bem como suas crenças e orientações sexuais.

Bolsonaro trata a crise do Covid-19 com descaso, não valorizando o papel da ciência e se esquecendo de implantar medidas que auxiliem na sobrevivência do povo. Ao fazer isso, ele cativa poucos (os que manifestaram de forma irresponsável dia 15/03) e provoca o ódio de muitos. Penso que o patriotismo brasileiro serve apenas a uma classe, com o intuito de criar brigas internas de maneira a evitar que o povo perceba que é o verdadeiro prejudicado.

Para encerrar minha reflexão da quarentena, eu espero que a atual crise proporcionada pelo Covid-19 faça com que a importância do cuidado com a saúde consiga nos unir e consolidar um sentimento patriótico de prezar pelo coletivo, de uma maneira que se perceba a necessidade dos serviços básicos (saúde e educação), que a pluralidade e miscigenação do povo brasileiro sejam valorizadas e que a população se conscientize de que os governantes devem nos representar, e não o contrário.


35 visualizações
  • Facebook
  • Instagram