O Poço: breve comentário sobre alegoria e obviedade




Ao longo das últimas duas semanas, alguns leitores e amigos me sugeriram fortemente que assistisse O Poço, produção Netflix espanhola dirigida por Galder Gaztelu-Urrutia, e que vêm gerando furor nas redes sociais. Assisti ao filme e vou expor minhas impressões sobre ele. Quero deixar claro, já de inicio, que entendo os motivos de estar gerando tanta mobilização, porém, para mim, é uma obra que tenta ser mais do que realmente é.

Para Bill Nichols (2016), teórico e professor de cinema da San Francisco State University, diferentemente do documentário, que se propõe a apresentar o mundo histórico, o cinema de ficção é essencialmente alegórico. Alegoria, segundo o dicionário Michaelis, é toda: “Forma ou técnica de representação figurada do mundo abstrato ou imaginário, utilizada no âmbito artístico e intelectual, por meio de imagens, figuras, pessoas, ideias ou qualidades abstratas, de modo que tais elementos funcionem como disfarce das ideias apresentadas”. Portanto, uma alegoria trabalha no campo do simbólico para propor uma ideia ou reflexão sobre o mundo histórico.

Jefferson Venancius, em seu texto “Alegorias cinematográficas | Indo além do óbvio” (2017) dirá que: “[...] um dos principais alicerces da arte é a alegoria, pois ir além do óbvio é conseguir tocar a consciência”.

Mas o que fazer; pensar; dizer, quando o óbvio é o principal elemento da alegoria em questão?

A alegoria apresentada em O Poço é óbvia, e fica facilmente compreendida no primeiro ato do filme. Desde a construção dos andares, de cima para baixo e com formas geométricas retangulares, até o funcionamento da plataforma com a comida, tudo é bem didático para exemplificar a questão da diferença entre classes sociais. O recurso dos andares como representação da pirâmide social me lembrou, quase instantaneamente, de Parasita, vencedor do último Oscar de melhor filme, que se utiliza, de forma muito mais sutil, da mesma construção em diversos elementos de seu design de produção.

Didatismo e obviedade são necessariamente ruins em uma obra de arte? Evidentemente que não! Um exemplo ótimo, também do ano passado e com uma temática forte de crítica social, é Bacurau, que deixa clara (na metade final do segundo ato) a alegoria apresentada.

O que me incomodou em O Poço não é o didatismo, mas a maneira na qual narrativa é construída e tenta suscitar reflexões para além do realmente proposto. O design de produção é competente em construir, através do cenário, a mensagem alegórica, porém essa é apresentada rápido demais, e fica evidente rápido demais, de modo que, uma vez captada, aos poucos perde o impacto durante o desenvolvimento do segundo ato.

Bordwell e Thompson, em seu livro Film Art: An Introduction (1997) propõem quatro significados possíveis de ser extraídos de um filme: o referencial (a sinopse da obra); o explícito (o mais básico captado); o implícito (uma mensagem com maior profundidade presente na narrativa); e o sintomático (um sintoma, ou seja, um significado extraído do implícito e quase imperceptível).

O Poço aparenta não passar do explícito. A mensagem é de extrema importância, mas limitada. A aura de grande crítica social se torna forçada e repetitiva fazendo com que as inúmeras imagens fortes, que no início servem bem ao proposito da obra, aos poucos passem a chocar mais por si do que pela mensagem presente.

O choque, aliás, talvez seja o grande ponto forte. O filme não tem medo de causar impacto, ser nojento, perturbador, visceral. No entanto, a partir de determinado momento a trama principal parece não saber mais para onde ir, as sub-tramas não tem desenvolvimento suficiente para prender a narrativa e a alegoria já foi plenamente compreendida, de modo que o chocante se torna quase vazio.

Não há problema em uma obra querer chocar somente por chocar, diversos filmes ao longo da história fazem isso muito bem, e, como aponta Arthur Tuoto em sua crítica publicada no Letterboxd, os melhores momentos de O Poço se dão justamente quando ele se propõe a isso. Nas palavras de Tuoto (2020): “O ponto positivo é que o filme, na maior parte do tempo, usa essa aproximação mais como um artifício narrativo para explorar ideias de terror e suspense do que para tentar compor um ensaio político pretensioso”.

A questão é: a obra não assume totalmente esse caráter, voltando constantemente, inclusive em seu clímax, à mensagem de alegoria crítica já há muito compreendida, tentando forçar no espectador novas reflexões com as mesmas velhas mensagens. Desse modo o impactante e incomodo das cenas deveria servir a um proposito narrativo que apresenta uma mensagem alegórica, mas acaba se tornando maior que ela, que se esvazia.

Voltando a Bill Nichols (2016): “Num mundo fictício alternativo, uma história se desenrola. Ao se desenrolar, ela inspira e gera temas sobre o mundo em que realmente vivemos. É por isso que nos voltamos para a ficção para compreender a condição humana”. O Poço cumpre esse objetivo apresentando uma representação simbólica para uma temática relevante à humanidade, sobretudo em nossa atual conjuntura social. Porém, o faz sem sair de obviedades e do superficial.

Referências:

O Poço. Direção: Galder Gaztelu-Urrutia. Produção: Carlos Juárez. Roteiro: Aranzazu Calleja. Espanha: Netflix, c2019.

Filmografia citada:

Bacurau. Direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Produção: Emilie Lesclaux et al. Brasil, c2019.

Parasita. Direção: Bong Joon-ho. Produção: Bong Joon-ho et al. Roteiro: Bong Joon-ho e Han Jin-won. Coréia do Sul, c2019.

Bibliografia:

ALEGORIA. In: Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 2020. Disponível em: <https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/alegoria>. Acesso em 02 de abr. de 2020.

BORDWELL, David; THOMPSON, Kristin. Film Art: An Introduction. Nova York: The McGraw-Hill Companies, 1997.

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus, 2016.

TUOTO, Arthur. The Plataform. Letterboxd. 27 de mar. de 2020. Disponível em: <https://letterboxd.com/miserybeat/film/the-platform/>. Acesso em: 02 de abr. de 2020.

VENANCIUS, Jefferson. Alegorias cinematográficas | Indo além do óbvio. Proibido ler. 25 de jul. de 2017. Disponível em: <https://www.proibidoler.com/cinema/alegorias-cinematograficas-indo-alem-do-obvio/>. Acesso em 02 de mar. de 2020.

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