Pippen, Jordan, e o papel dos coadjuvantes



Sherlock Holmes é um dos maiores detetives da literatura e do cinema. Seu nome transcendeu a obra do criador, Sir. Arthur Conan Doyle, tornando-se parte do imaginário popular sobre investigadores. Outro detetive que está intrínseco na cultura popular, e um dos maiores super-heróis já criados, é o alter-ego de Bruce Wayne. Também mascarado e também de preto, Zorro é, assim como os supracitados, figura folclórica na literatura, nos quadrinhos e nas produções audiovisuais. O que todos têm em comum além da luta contra crime por meios não convencionais? Um fiel escudeiro.

Para além deles, muitos são os exemplos, na ficção e na realidade, de protagonistas heroicos cujos parceiros sempre estavam a seu lado: Dom Quixote tinha Sancho Pança; Frodo tinha Sam; Pelé tinha Coutinho; Hortência tinha Magic Paula; Harry Potter tinha Rony e Hermione; Luke tinha Han Solo; Capitão Kirk? Spock; Pernalonga? Patolino; e a lista continua...

Mas, afinal, qual a real importância dos coadjuvantes para a construção da narrativa dos protagonistas?

Talvez essa seja a grande pergunta do segundo episódio da recém-estreada Arremesso Final (The Last Dance). Produção ESPN em parceria com a Netflix, a série documental terá dez episódios e tratará da busca do Chicago Bulls pela conquista de seu sexto e último título da NBA, na temporada 97/98. Os dois primeiros foram disponibilizados no Brasil pela plataforma de streaming segunda-feira passada (20/04); o terceiro e quarto entraram no catálogo hoje (27/04).

Com um riquíssimo acervo de imagens de arquivo, se utilizando também de entrevistas com diversas personalidades que fizeram parte, direta ou indiretamente, da conquista, a narrativa transita entre os modos documentais: poético; observativo e participativo, conduzindo muito bem os acontecimentos através de uma montagem comprobatória eficiente na criação de sentido da obra e na condução dos sentimentos do espectador.

Michael Jordan, não poderia ser diferente, é a grande estrela da série, sendo apresentado como fio condutor da trama e principal responsável pelo sucesso meteórico do Bulls. Pelo menos no primeiro episódio.

É claro, a segunda parte também trás o único a jogar com Pernalonga como protagonista, no entanto outra figura aparece como condutor dramático da trama: Scottie Pippen.

Relatado como o Robin do Batman de Michael, Pippen era o segundo melhor jogador do Bulls, possivelmente o segundo melhor de toda a liga, e chegava à temporada 97/98 apenas em 122º no ranking de salários e cogitado para ser negociado. Como forma de protesto em busca de maior valorização, decide adiar para o início da temporada uma cirurgia que faria no pé, inicialmente no período de férias, após uma lesão nas finais de 1997. Ficando fora dos 35 primeiros jogos, abala sua relação com Jordan que passa a carregar o time sozinho.

A reação de Jordan e, acima de tudo, os resultados em quadra justificaram a atitude de Pippen. De subestimado e dispensável, o documentário o constrói como basilar para o sucesso daquela equipe.

Basilar é uma boa palavra para definir o número dois. Afinal, para uma lâmpada brilhar e iluminar a rua, é preciso o poste. Para um quadro ser pendurado é preciso o prego, e a parede, e para a parede ficar em pé, é necessário o alicerce. Uma lâmpada certamente produziria luz se conectada a qualquer fonte de energia compatível, mas não iluminaria tanto espaço se estivesse em um lugar baixo. Da mesma forma um quadro continuaria belo mesmo não estando pendurado, mas, fora da parede, guardado em um armário, não poderia ser visto e não tornaria todo um ambiente também mais bonito.

Jordan sem Pippen ainda seria Jordan, mas seria multicampeão? Nas palavras do próprio:

“Eu nunca venci sem Scottie Pippen. E é por isso que eu o considero meu melhor companheiro de todos os tempos [...] Onde eles falam Michael Jordan, deveriam falar Scottie Pippen”.

Toda a construção narrativa desse episódio é trabalhada de modo a nos fazer simpatizar com o camisa 33, o que se torna ainda mais fácil devido a sua simpática persona, mas, além disso, nos leva a reflexões importantes sobre obras tão aclamadas e internalizadas em nós que muitas vezes esquecemo-nos de analisa-las sob novos aspectos.

Sherlock ainda seria um grande detetive sem Dr. Watson? Certamente sim, ainda seria Sherlock Holmes. Mas resolveria todos os casos que resolveu? E quanto a Zorro, o que faria sem Tonto? E o Batman sem Robin ou Alfred? Dom Quixote continuaria um sonhador, mas até onde chegaria sem Sancho Panca? E os Beatles, mudariam a história da música se não tivessem George Harrison?

São perguntas que, enquanto historiador, não poderia responder sem cair em um exercício contrafactual. Não sabemos o que todas essas figuras seriam sem seus coadjuvantes, mas sabemos que só são o que são, em grande parte, devido a eles.

Como a série continuará? Também não podemos responder agora, mas o fato é que Arremesso Final, ao menos em seus dois primeiros episódios, tem muito a nos ensinar sobre parceria e valorização, e talvez com ela, comecemos a voltar nossos olhares não somente para o que recebe a luz, mas também para o que está atrás dos holofotes.

Referências:

Arremesso Final. Direção: John Hehir. Estados Unidos da América: ESPN / Netflix, c2020.

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