Polêmica-Polanski (ou, sobre criador e criatura)

Atualizado: Mar 7



Frankenstein, livro de Mary Shelley, adaptado inúmeras vezes para o cinema, trás reflexões profundas sobre diversos temas que permeiam diferentes sociedades humanas até os dias atuais. Dentre eles, um de grande destaque é a dualidade envolvendo criador x criatura. Uma vez “criado”, o prometeu moderno desenvolve consciência própria, tendo pensamentos, sentimentos e ideias autônomos, e até contrários, a de Victor, seu criador. No entanto, a sina do monstro nunca se desvinculou totalmente de seu pai, estando ambos os destinos amarrados durante todo percurso de suas existências, e mesmo quando se findam, com o simbólico suicídio da criatura após a morte do criador.

As reflexões suscitadas por Frankenstein transcendem as páginas escritas ou frames filmados, nos levando a pensar em questões complexas com relação à natureza da arte: até onde se pode separar criador de criatura; autor de obra? Afinal, essa separação é possível? Uma obra de arte deve ser analisada somente por si, ou os atos e intenções de seu idealizador devem ser pesados na balança para tal avaliação?

Na última semana, Roman Polanski esteve envolvido em outra polêmica (nota-se no título do texto com o uso de hífen, pois já se tornou impossível dissociar uma coisa da outra), ao vencer o prêmio Cesar, a mais importante premiação do cinema francês na categoria de melhor diretor.

O diretor, acusado de estupro de pedofilia, optou por não comparecer a cerimonia de premiação, temendo represálias e protestos que, claro, ocorreram. Diversas artistas, entre elas Adèle Haenel, que foi uma de suas vítimas, e Céline Sciamma, se retiraram do salão em forma de protesto ao ser anunciado o nome do diretor. A expressão era de profunda indignação. A reflexão novamente ganhou corpo nas mídias sociais e outros meios de debate: afinal, até que ponto é eticamente correto premiar uma obra, por melhor que seja, de um homem como Polanski?

Para João Pereira Coutinho, em coluna recente da Folha de São Paulo: “Se os delitos de um artista não são compensados pelos méritos da sua arte, então os méritos da sua arte não podem ser descompensados pelos delitos de um artista”. Será mesmo?

Parece-me muito complexo defender a decisão da academia francesa nesse caso. Barthes e Foucault que me perdoem, mas a teoria da morte do autor, a meu ver, não é aqui aplicável.

Se, como em Frankenstein, uma obra artística ganha vida própria ao ser criada, do mesmo modo, como em Frankenstein, é impossível dissocia-la do destino de seu criador. Uma relação dialética e contraditória? Sim, mas o que em nossas vidas não é dialético e contraditório?

A filmografia de Polanski deveria então ser toda ignorada? Parece-me igualmente complexo defender tal posicionamento. Como deixar de assistir e estudar obras como “O bebe de Rosemary” ou “O Pianista”? Indo além, como descartar Caravaggio; Wagner; Griffith; Fellini e seu suposto tratamento abusivo com os atores; Monteiro Lobato; Woody Allen, e tantos outros? Em Frankenstein, quando o criador morre a criatura se destrói. No cinema e nas artes deveria ser assim?

Faço a vocês, leitores, essas perguntas, para que não me façam primeiro, pois não tenho ideia de como responder sem cair em incoerências e contradições. Coutinho responde de forma coerente. Eu? Não conseguiria.

Só o que posso dizer é que, no caso específico de Polanski, talvez o grande problema não tenha sido o novo filme produzido, mas sim o fato de ainda estar produzindo filmes. Se, antes de criminoso, ele foi um artista, hoje, antes de artista é um criminoso. O problema então não estaria nas premiações de “O Oficial e o Espião”, mas em sua existência.

Embora, por um lado, os méritos da arte não possam ser descompensados pelos delitos de um artista, o que fazer quando a existência de uma obra de arte desrespeita a própria existência de seres humanos? A vitória de Polanski desacata a presença de Haenel. A existência de “O oficial e o Espião” desacata todas as suas vítimas, que ainda não viram, mesmo que simbolicamente, a justiça ser feita.

Voltando a dialética proposta por Frankenstein, criador e criatura são, ao mesmo tempo, autônomos, e intrínsecos um ao outro. No caso de Polanski, o criador e o monstro são, na verdade, a mesma pessoa.

Claire Dederer, em um de seus textos para o El Pais, se questiona e nos questiona:

“O que fazemos com os monstros? Podemos e devemos amar suas obras? Todos os artistas ambiciosos são monstros? E, em voz muito baixa: sou um monstro?”.



Referências:

BARTHES, Roland. A morte do autor. In: BARTHES, Roland. O Rumor da Língua. São Paulo: Marins Fontes, 2004.

COUTINHO, João Pereira. Os méritos da arte não podem ser descompensados pelos delitos do artista. Folha de São Paulo. São Paulo, 03 mar. 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2020/03/os-meritos-da-arte-nao-podem-ser-descompensados-pelos-delitos-do-artista.shtml. Acesso em: 03 mar. 2020.

DEDERER, Claire. O que fazer com a arte de homens monstruosos? El Pais. 12 jan. 2018. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/08/cultura/1515416335_689166.html. Acesso em: 03 mar. 2020.

FOUCAULT, Michel. O que é um autor? In: FOUCAULT, Michel. Estética, Literatura e Pintura, Música e Cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.

SHELLEY, Mary. Frankenstein. Jandira: Principis, 2019.

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