Porque a obra de George A. Romero é essencial para os dias atuais

“Quando não houver mais espaço no inferno, os mortos caminharão sobre a terra!”

No momento em que estava terminando minha coluna sobre Arremesso Final (saíra segunda-feira, aguardem), uma cena grotesca me chamou atenção. Trata-se de um vídeo mostrando a reabertura de um shopping na cidade de Blumenau, Santa Catarina. Enquanto um talentoso saxofonista entoava uma melodia da banda Creedence, várias pessoas, muitas delas idosas, adentravam o recinto, algumas com maior receio, outras mais desinibidas e com celulares na mão a filmar.

A cena me remeteu quase instantaneamente a um dos maiores clássicos do cinema de horror: Despertar dos Mortos (1978), do mestre dos zumbis George A. Romero. Não estou descobrindo a roda aqui, a analogia é bem óbvia para qualquer pessoa que conheça a obra de Romero. E para aqueles que não conhecem, o momento é oportuno para visitar esse clássico.


Filmagem da abertura do Shopping em Blumenau


Cena do filme Despertar dos Mortos


Para discutir um pouco a importância da obra de Romero, e porque ela deveria ser revisitada por aqueles que conhecem e conhecida pelos que nunca viram, trarei à tona a perspectiva teórica de dois autores de muita relevância para analise sociológica contemporânea: o sul-coreano Byung-Chul Han e o polonês Zygumunt Bauman.

Começando pelo mais novo. Byung-Chul Han é o autor da ideia de “sociedade do desempenho”. Para ele, o capitalismo financeiro geraria o sonho ilusório do empreendedorismo. O cidadão de classe média se viria na oportunidade de se livrar das amarras da subordinação e do emprego formal, se tornando patrão de si mesmo. No entanto tal objetivo acaba sendo impossível de ser alcançado, devido a falta de oportunidades e ao alto nível de competitividade do sistema financeiro que não da margens para falhas. O “empreendedor”, então, se livraria do patrão, porém tornando-se escravo de seu próprio desempenho, e um zumbi da produtividade.

Essa hipervalorizarão da produção tem atormentado muitas pessoas durante a quarentena. Somos zumbis da nossa produtividade, não podemos ficar parados. Temos que bradar a todo o momento, não “cérebros!”, mas “produção!”. O ócio não é uma opção.

A própria ideia de empreendedorismo pode ser análoga aos zumbis. O grande vilão das obras de Romero é um ser humano, morto, do qual é impossível negociar, e que têm um único objetivo: devorar você. O que é, afinal, o capitalismo financeiro, se não pessoas unicamente tentando devorar umas as outras?

Já Bauman, amado por uns, odiado por outros, cunha o famoso conceito de “modernidade liquida”. Explicando de maneira rápida, toda a solidez da crença na modernidade se esvaiu, as pessoas perderam as referências sólidas, de modo a viverem em uma sociedade líquida, volúvel e que se transforma constantemente. A falta de referencial causa angustia e vazio existencial, tentamos preencher através do consumo incessante e compulsivo. Nós desejamos algo intensamente, e quando conseguimos, o objeto perde seu encanto e valor.

Mesmo antes de Bauman teorizar sobre, Despertar do Mortos já capta com perfeição a essência dessa modernidade liquida. Ao retratar os zumbis dentro de Shoppings Centers, trás uma crítica explicita a sociedade de consumo estadunidense da década de oitenta, que, como visto em Blumenau, continua atual, se aplicando perfeitamente a sociedade de consumo brasileira atual. Nesse caso, em vez de "cérebros!" o brado é "consumo!".

Temos muito a aprender com Romero, a começar pelo mais obvio: temer o vírus e se proteger. Mas, assim como no filme, aqueles que não se protegem e agem de forma displicente (lá, os motoqueiros) colocam em risco todos quantos se resguardam e tomam as precauções para sobreviver.

As reflexões “seria o ser humano o verdadeiro vilão?” e “seria o ser humano o verdadeiro zumbi?” podem parecer clichês, mas se mostram extremamente necessárias.

Refêrencias:

Filmografia específica:

Despertar dos Mortos. Direção: George A. Romero. Produção: Richard P. Rubinstein. Estados Unidos da América: United Film, c1978.

Bibliografia:

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. São Paulo: Zahar, 2001.

______. O mal-estar da pós-modernidade. São Paulo: Zahar, 1998.

HAN, Byung-Chul. Agonia de Eros. São Paulo: Vozes, 2017.

______. Sociedade do cansaço. São Paulo: Vozes, 2014.

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