Presidente x Saúde: o assassinato físico e mental


Aos queridos leitores peço desculpas por não manter publicações semanais de forma constante. Estou deveras ocupado me reinventando enquanto professor, tendo que reorganizar aulas, planejar atividades e realizar lives como um digital influencer. Desafios exigem constantes devires, e sei que todos sairemos com novas habilidades e descobertas desta situação em que nos encontramos.

O título que escolhi para esta coluna parece um pouco dramático num primeiro momento, porém, questiono: será que é mais dramático do que nossa situação contemporânea?

Atualmente, o brasileiro precisa lidar com a pandemia da COVID-19, com as medidas de isolamento social propostas pelo governo, com o presidente sendo contrário às medidas do próprio Ministério da Saúde, com pessoas a favor do presidente atacando as instituições democráticas e defendendo a inexistência do vírus que é Global (não, ele não foi criado pela Globo – risos), com o negacionismo da ciência, com crises dentro do governo, etc.

Depois dessa breve exposição de nossas lutas diárias, pergunto novamente: será que o título da coluna é mais dramático do que nossa situação contemporânea?

Na coluna eu busco realizar um apanhado de dois eventos importantes que ocorreram recentemente dentro de nosso instável governo: a demissão do ex-Ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro (24/abr.), o mais “forte” pilar do discurso político do presidente Jair Bolsonaro contra a corrupção; e a demissão do ex-Ministro da Saúde Nelson Teich (15/mai.), o indivíduo que substituiu Luiz Henrique Mandetta, de forma a legitimar as irresponsabilidades do presidente, mas apresentou divergências com Bolsonaro desde o início.

Enquanto historiador, preferi não abordar a demissão de Sérgio Moro numa coluna logo que ela aconteceu, uma vez que é de ofício do historiador se distanciar de seu objeto de análise para construir uma visão mais completa (mesmo que seja impossível de ser realizada) sobre o acontecimento. Tal prática também nos ajuda a evitar previsões, porque o futuro não cabe à História – então, se o seu professor lhe ensina que a História serve para prever o futuro, pergunte a ele o resultado da Mega-Sena.

O que defendo aqui é o mesmo que Marc Bloch (1886-1944), historiador francês assassinado por nazistas após ser torturado, defendia em sua obra póstuma Apologia da História ou o Ofício de Historiador. Bloch dizia que “A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado”. Mais uma vez, questiono: por que temos um governo medíocre, que não se importa com nossa sanidade e saúde, quando precisamos de um governo exemplar e preparado? Arrisco a resposta: a ignorância do passado.

Jair Bolsonaro (que possui um histórico bem infeliz como militar e como deputado federal pelo RJ) se apoiou na figura de Sérgio Moro (“paladino da justiça” responsável por prender vários corruptos que não lhe eram caros com sua operação política “Lava-Jato”) durante as campanhas de 2018. Foram tais posições que orientaram a última eleição.

O objetivo foi construir uma imagem de candidato honesto e anticorrupção que acabaria com a chamada “velha política”. Imagem que se mostrou rasa, visto que o conflito entre Bolsonaro e Moro, ocorreu porque o presidente queria trocar o ex-diretor geral da Polícia Federal do Rio de Janeiro, Maurício Valeixo, por alguém que lhe passasse informações de relatórios sempre que solicitadas (lembrando que a PF deve responder ao Supremo Tribunal Federal – STF).

Após essa tentativa de interferência do presidente (algo que passa por investigação pela Procuradoria Geral da República – PGR, e que pode constatar que a intenção de Bolsonaro seria proteger os filhos de serem acusados), Moro se demite de seu cargo de ministro. O “paladino da justiça” buscou manter sua imagem ao dizer que teria que “preservar sua biografia”.

Penso que Moro não se demitiu por se importar com o povo brasileiro ou por respeito às instituições jurídicas do Brasil, mas por perceber que, aos poucos, o governo Bolsonaro está ruindo e, se ele ficasse próximo, a sua imagem também iria declinar e ele não poderia tentar possíveis candidaturas no futuro.

Sérgio Moro, que proferia um discurso anticorrupção, decidiu entrar no governo para engrandecer sua imagem (rumores de que ele queria um cargo no STF), e saiu do mesmo para evitar que sua aura de salvador fosse prejudicada. Ao que me parece, a negociação da velha política (o interesse em cargos) ainda permanece.

Jair Bolsonaro, que se apoiou no discurso anticorrupção e fez uso da Lava-Jato como plataforma política, recentemente começou a realizar negociações com o chamado centrão quando percebeu que estava perdendo apoio no Congresso. Ao que me parece, a negociação da velha política ainda permanece.

Se tais ocorridos provocam um atentado à nossa saúde mental, temos que também analisar os acontecimentos que interferem diretamente na nossa saúde física.

O mais recente caso que ganhou os holofotes diz respeito ao tratamento do governo em relação à pandemia de COVID-19 no Brasil. Menos de um mês após assumir o cargo, o Ministro da Saúde Nelson Teich pediu demissão após se desentender com o presidente Bolsonaro.

Teich, médico oncologista, sabe dos riscos de se utilizar o medicamento cloroquina de maneira displicente e como isso pode acarretar em uma grande mortalidade. Já Bolsonaro, o militar reformado, insiste que o medicamento deve ser utilizado já nos primeiros indícios da doença e buscou mudar o protocolo de ação do Ministério da Saúde. Em síntese, o presidente tentou legitimar a mortalidade de inúmeros brasileiros ao validar o uso de um medicamento que está em fase de testes para a referida doença.

Nelson Teich não aguentaria manter uma posição que buscasse a negação da ciência e da medicina. Bolsonaro não aceitaria novamente alguém que o desafiasse, e não me surpreenderia se o próximo indicado a compor a cadeira do Ministério da Saúde seja um general ou alguém do centrão. Assim como a nossa sanidade mental está sob ataque, a saúde física também sofre com tal mediocridade.

A História se faz presente para não nos esquecermos dos discursos políticos ditos incansavelmente por essas figuras, e por tantas outras que nos circundam. Peço, humildemente, que não se esqueçam, pois hoje assistimos ao assassinato de nossa saúde mental, devido à instabilidade e insegurança que o atual governo nos passa, e ao crescimento desenfreado de infectados e mortos, mais de 200 mil e 14 mil respectivamente, por COVID-19 no Brasil.

Por isso, gostaria de terminar minha coluna com a epígrafe que se encontra no túmulo do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela Ditadura Militar em 1975: “Quando perdemos a capacidade de nos indignar com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerar seres humanos civilizados”. A História sempre se lembrará.

Referência da Imagem

FÓRUM. Moro manda indireta nas redes após demissão de Teich: “Cenário difícil”. Fórum. Santos - SP. 15 maio 2020. Disponível em: https://revistaforum.com.br/politica/moro-manda-indireta-nas-redes-apos-demissao-de-teich-cenario-dificil/. Acesso em: 15 maio 2020.

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