Samurai Gourmet, um dia ruim e a poesia do cotidiano

Na última terça-feira (10/03), o SESC Bauru exibiu, em sua excelente mostra de cinema brasileiro contemporâneo, Bacurau (para aqueles que estavam presos em uma caverna ou ilha deserta no ano passado, se trata do último filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelas, ganhador do premio da Crítica no festival de Cannes de 2019). Em principio essa coluna seria justamente sobre ele e a importância da memória para a sociedade, no entanto esse tema pode esperar, porque o dia que seria de Bacurau foi quase Um dia de fúria, e terminou como uma noite de paz e sabores.

Na última terça-feira (10/03), eu tive meu dia mais azaro em 2020 (até o momento). Acordei pela manhã após uma noite tranquila, uma das poucas, aliás, nos últimos tempos, tomei um banho, um café, e saí para trabalhar. Assim que chego à escola em que leciono, recebo a notícia que iria assumir as aulas de filosofia. Inicio promissor, não? Tinha tudo para ser um dia bom. Mas como a vida é tão previsível quanto um jogo de pôquer entre amadores, as cartas abertas na mesa mudaram o destino das coisas.

A situação começa a piorar quando chego a minha casa. Oito novas cadernetas para preencher e colocar em ordem, e nem deu tempo de guardar o carro, cuja gasolina já estava acabando, quando tive que sair novamente, pois o carro da minha irmã, também professora, havia descarregado a bateria.

Chegando finalmente em casa, após o almoço fui estender algumas roupas no varal. Distraído com a tarefa, não notei uma tábua no chão e pisei em um prego enferrujado. Mais uma hora perdida fazendo a devida higienização e indo ao posto de saúde tomar vacina para tétano.

Uma tarde inteira preenchendo cadernetas e papeladas com o braço doendo, e quando finalmente terminei o serviço meu celular, um K10 já idoso que estava carregando na mesa em que eu trabalhava, decidiu pular de bungee jumping. Ele só não contava que o cabo do carregador não estava disposto a tomar as devidas medidas de segurança. Espatifou-se de cara no chão. Tela quebrada e sem funcionar, e lá vou eu gastar uma grana para arruma-lo. Não sou supersticioso, mas é engraçada a coincidência de tudo isso ter ocorrido na semana da sexta-feira 13.

À noite, após tentar sem sucesso me concentrar para estudar os conteúdos de minha nova graduação, tomei a decisão drástica! Fecha-se o portal do aluno e abre-se a Netflix! A escolha? Uma série japonesa de comédia despretensiosa e com uma premissa um tanto excêntrica: Samurai Gourmet. Nunca ouviu falar? Tudo bem, dessa vez não vou te acusar de morar em uma caverna ou ilha deserta. É o tipo de obra que infelizmente ninguém conhece, mas todo mundo deveria ver.

O título é quase autoexplicativo: Takeshi Kasumi (Naoto Takenaka) é um simpático senhor aposentado que decidi se aventurar por diferentes restaurantes de Tóquio e região. Neles, acaba se deparando com diversos dilemas existenciais (tomar ou não uma cerveja no almoço durante a semana? experimentar ou não aquele prato novo que o fará sair da zona de conforto? Fazer ou não fazer barulho ao comer uma sopa em um restaurante chique?) e, para resolvê-los, tem a brilhante ideia de imaginar como um Samurai (Tetsuji Tamayama) agiria em seu lugar.

Parece o tipo de coisa que você assistiria? Provavelmente não, mas eu insisto que Samurai Gourmet é uma obra que todo mundo deveria ver. Por trás da ideia um tanto estranha, para quem se abre a experiência a serie se revela deliciosamente boa. Os dilemas são cotidianos e aparentemente banais, porém ganham um tom épico na cabeça de Takeshi.

Você simpatiza e se identifica com o protagonista já nos primeiros minutos. A série diverte, emociona, e é impossível não se pegar, ao menos em um dos doze episódios, pensando algo como “isso é o tipo de dilema que eu também teria no lugar dele”. Além de deixar com muita fome (é sério, não assista de barriga vazia) faz refletir sobre a grandeza da banalidade do cotidiano, e sobre como a questão mais simples e corriqueira pode se tornar tão grandiosa quanto um filme de Akira Kurosawa. Obra do destino? Parece que um A de espadas foi aberto na mesa de pôquer da minha vida, porque era exatamente o tipo de coisa que eu precisava para aquele dia ruim.

O mais belo e encantador é que Samurai Gourmet faz tudo isso com uma leveza e delicadeza difíceis de encontrar. O cotidiano ganha um tom épico, mas poético, nas atuações brilhantes dos dois protagonistas; na trilha sonora, e, em especial, na fotografia através dos movimentos de câmera fluídos; dos planos fechados e planos detalhe enfatizando a apetitosa comida; e do tratamento de cores e luz que alterna entre tons claros e lavados ao retratar Takeshi, e uma paleta mais escura, com maior ênfase no marrom, para o Samurai (isso sem perder a unidade e a coerência narrativa). A escolha por uma iluminação e coloração leve e que remete a sonhos, justamente para representar a realidade, diz muito sobre a mensagem da série. Praticamente todos os elementos narrativos parecem nos levar a flutuar. Tudo é absurdamente cotidiano, absurdamente leve e absurdamente poético.

Desde que comecei a me dedicar a estudar cinema e audiovisual de forma acadêmica, foram raros os momentos em que pude apreciar uma obra simplesmente para relaxar; que um filme ou série me arrancou sorrisos bobos e me deu o sentimento de paz de espírito após um dia difícil como aquele. O que foi o dia mais azarado terminou como uma das noites mais saborosas em 2020.

Samurai Gourmet me lembrou de que o audiovisual, para além de suscitar conceitos filosóficos e levar-nos a refletir sobre política, história, arte e a sociedade e o meio em que vivemos, carrega em si outro valor, muitas vezes negligenciado por mim enquanto estudioso, mas essencial para o ser humano e tão importante e poderoso quanto os supracitados: o valor do entretenimento.

Mas afinal, Samurai Gourmet é perfeita? Para responder, faço as palavras de David Ehrlich, crítico do portal A Escotilha, as minhas: “Há algo que estrague a série? Bem, uma coisa: ela acaba”.

Devorei a série, cujos episódios duram cerca de vinte minutos, e fui dormir, com o calcanhar furado e latejando, o braço dolorido, matérias da faculdade acumuladas, papeladas para preencher, celular na UTI e a conta bancária vazia, mas com um sorriso que há muito não tinha, e a certeza: sejam eles banais ou sérios, nossos dilemas diários carregam muito mais beleza e poesia do que nos damos conta.





Referências:

EHRLICH, David. ‘Samurai Gourmet’: a saborosa liberdade da aposentadoria. A Escotilha. Olhar em Série. 3 dez. 2018. Disponível em: < http://www.aescotilha.com.br/cinema-tv/olhar-em-serie/samurai-gourmet-netflix-resenha/>. Acesso em: 11 mar. 2020.

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