Sobre a fidelidade das adaptações literárias

Atualizado: Mai 24




Ontem (14/05), antes da demissão do novo/velho ministro da saúde do governo Bolsonaro, enquanto terminava de preparar o conteúdo de mais uma aula online para meus alunos, abri rapidamente o facebook e me deparei com uma notícia interessante: a Disney+, plataforma de streaming da Disney, anunciou a tão pedida adaptação da famosa série de livros Percy Jackson e os Olimpianos! Rolando o feed um pouco, surgiu um vídeo do próprio Rick Riordan, autor dos livros, declarando que estará envolvido diretamente com a produção, que se dará em formato de série e terá a primeira temporada adaptando O Ladrão de Raios.

Curiosamente a aula era justamente sobre Grécia Antiga, coincidências do cotidiano.

Coincidências a parte, a declaração de Riordan, ao “tranquilizar” os fãs, me reacendeu um tema que já há algum tempo queria escrever: o que torna boa uma adaptação literária?

Os dois filmes existentes de Percy Jackson foram duramente criticados em seus respectivos lançamentos (2010 e 2013) justamente pela falta de fidelidade a obra original. Os comentários mais comuns a serem proferidos pelos fãs não só dessa, como de várias outras sagas literárias, quando há o lançamento de uma adaptação audiovisual, são: “isso não ficou bom porque não está fiel ao livro”; “espero que sejam fieis ao livro”; “tal cena não tinha no livro / tal cena do livro eles cortaram” e o clássico “o livro é sempre melhor”. Muitos deles, inclusive, podem ser vistos na publicação da editora Intrínseca de ontem anunciando a notícia acima descrita.

Esse tipo de comentário nasce, em grande medida, de uma devoção e apreço pela obra literária, uma idealização que deseja mantê-la intocável. Há um ar de sacralidade aí. O leitor, ao mesmo tempo em que quer ver a obra nas telonas ou telinhas, teme que ela seja “profanada”. Ok, eu entendo os argumentos, admito que também os utilizei para falar mal dos filmes de Percy Jackson na minha adolescência. Mas, se deixarmos a paixão de lado, eles se tornam bem problemáticos.

Reformulemos a questão inicial: uma adaptação, para ser boa, precisa necessariamente ser fiel ao material original? A resposta para essa pergunta é: Não! O motivo é muito simples: são duas formas de arte diferentes, com linguagens diferentes, e que tocam o apreciador em sentidos e de formas diferentes.

Um livro trabalha essencialmente com palavras. Através do texto escrito ou falado, as imagens são criadas unicamente no imaginário do leitor. Um filme, ao contrário, trabalha com imagens e sons, de modo que o espectador não precisa imaginar um cenário, um personagem ou um objeto, ele já esta dado em sua forma. Há uma passividade maior.

Falemos de Platão: em um livro, quando há a descrição de um objeto, peguemos como exemplo uma cadeira, por mais minuciosa que a descrição seja não se tem uma personificação física, uma foto, pintura, ou uma cadeira real, dessa forma a imagem de cadeira é criada em nossa mente no campo das ideias, podendo diferir de acordo com o leitor. Em um filme a imagem esta lá, não é a cadeira ideal, mas a personificação física e sensível de uma cadeira.

É claro, o cinema também faz sugestões e ativa o elemento da imaginação, mas de uma forma diferente. Uma imagem, um movimento de câmera, ou uma sucessão de imagens dada através da montagem, pode ganhar novos significados na cabeça de quem a assiste. O principio da montagem dialética de Eisenstein defende justamente isso: duas imagens, não necessariamente relacionadas, quando colocadas em sequencia através da montagem, geram uma terceira que é criada na mente do espectador, tendo um significado novo.

Aqui está a diferença essencial: a sugestão vem a partir do que se vê e ouve. Isso, por si só, já torna impossível uma adaptação fiel.

Pode parecer obvio, mas é de extrema importância a compreensão de que livro é livro, e filme é filme. Se formos a uma sala de cinema esperando ver um livro em tela, iremos com certeza nos decepcionar. É essencial ter em mente que, mesmo advindo de um material original em comum, ou narrando à mesma história, são obras diferentes, e devem ser analisadas e julgadas separadamente, por seus méritos e defeitos próprios, e não pelo quão parecido é uma com a outra.

Parece difícil, e realmente pode ser, mas é um exercício necessário se abrir para a obra audiovisual, deixando-se impactar pelo que ela tem a oferecer, e não pelo que nós esperamos espera que ela ofereça.

Para exemplificar, peguemos duas obras famosas de fantasia: As Crônicas de Nárnia, e O Senhor dos Anéis. O primeiro filme da obra de C.S Lewis, O leão, a feiticeira e o guarda roupas, busca adaptar com uma fidelidade gigantesca o material original, e de certa forma alcança o objetivo. O filme é muito fiel? Sim. É um excelente filme, tão bom quanto o livro? Isso é muito questionável.

Já no caso da obra de Tolkien, Peter Jackson, nos três filmes da trilogia, toma liberdades e altera consideravelmente muitas coisas dos livros, desde personagens importantes que são retirados, até a própria estrutura da narrativa. Parece ser um caminho desastroso? Pois a trilogia cinematográfica de O Senhor dos Anéis é tida como uma das melhores da história do cinema.

Outros exemplos, de outros gêneros, que merecem menção: O Poderoso Chefão, que adapta um romance medíocre de Nino Rota e o transforma em uma obra prima do cinema, tida, assim como o supracitado, como uma das maiores trilogias da sétima arte; e A Culpa é das Estrelas, que, embora não tenha revolucionado o gênero e nem se destacado, é competente em adaptar o clima do livro original se adequando a linguagem audiovisual.

Isso significa que os filmes devem ignorar totalmente os livros, ou os materiais base, na hora de serem realizados? Não necessariamente. Preservar o clima, ou a aura da história original pode ser um bom caminho para o sucesso, porém para fazer isso não é necessário o rigor de uma fidelidade extrema.

Exemplifiquemos isso com o maior detetive já criado: Sherlock Holmes. Os filmes com Robert Downey Jr não são obras primas, porém não são ruins, e fazem isso subvertendo aspectos da personalidade do protagonista, mas preservando o contexto histórico no qual os livros se passam. Já a famosa série da BBC que contém Benedict Cumberbatch no papel principal traz o detetive inserido em um contexto histórico totalmente diferente do presente nos livros de Sir, Arthur Conan Doyle, e ainda assim captam a essência do personagem em excelentes histórias.

Outro exemplo possível é o de Blade Runner, que altera consideravelmente os acontecimentos de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, e ainda assim constrói uma das maiores ficções científicas do séc. XX.

Podemos concluir que, para o bem ou para o mal, não existe uma formula ideal para adaptações literárias, mas ter em mente que cada obra é única em si pode ser um caminho interessante para aprecia-las melhor.

Referências

Filmografia citada

A Culpa é das Estrelas. Direção: Josh Boone. Produção: Wyck Godfrey; Marty Bowen e Isaac Klausner. Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber (baseado na obra de John Green). Estados Unidos da América: Temple Hill, c2014.

As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feitiçeira e o Guarda-roupa. Direção: Andrew Adamson. Produção: Mark Johnson. Roteiro: Andrew Adamson et al (baseado na obra de C.S. Lewis). Estados Unidos da América / Reino Unido: Walt Disney Pictures, c2005.

Blade Runner. Direção: Ridley Scott. Produção: Michael Deeley e Ridley Scott. Roteiro: David Webb Peoples e Hampton Fancher (baseado na obra de Philip K. Dick). Estados Unidos da América: Blade Runner Partnership / The Ladd Company / Shaw Brothers, c1982.

O Poderoso Chefão. Direção: Francis Ford Coppola. Produção: Albert S. Ruddy. Roteiro: Francis Ford Coppola (baseado na obra de Nino Rota). Estados Unidos da América: Paramount Pictures, c1972.

O Senhor dos Aneis (trilogia). Direção: Peter Jackson. Produção: Peter Jackson et al. Roteiro: Peter Jackson et al (baseado na obra de J.R.R Tolkien). Estados Unidos da América: New Line, c2001 / 2002 / 2003.

Percy Jackson e o Ladrão de Raios. Direção: Chris Columbus. Produção: Michael Barnathan; Mark Radcliffe e Karen Rosenfelt. Roteiro: Chris Columbus (baseado na obra de Rick Riordan). Estados Unidos da América: Fox 2000 pictures, c2010.

Percy Jackson e o Mar de Monstros. Direção: Thor Freudenthal. Produção: Karen Rosenfelt e Michael Barnathan. Roteiro: Marc Guggenheim; Larry Karaszewski e Scott Alexander (baseado na obra de Rick Riordan). Estados Unidos da América: Fox 2000 pictures, c2013.

Sherlock. Direção: vários autores. Produção e roteiro: Mark Gatiss e Steven Moffat (baseado na obra de Sir. Arthur Conan Doyle). Reino Unido e Irlanda do Norte: BBC, c2010 – 2017.

Sherlock Holmes. Direção: Guy Ritchie. Produção: Lionel Wigran et al. Roteiro: Anthony Peckham et al (baseado na obra de Sir. Arthur Conan Doyle). Estados Unidos da América: Warner Bros, c2009.


Sagas / Livros de ficção citados

A Culpa é das Estrelas – John Green.

As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feitiçeira e o Guarda Roupas – C. S. Lewis.

Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? – Philip K. Dick.

O poderoso Chefão – Nino Rota.

O Senhor dos Anéis – J. R. R. Tolkien.

Percy Jackson e Os Olimpianos – Rick Riordan.

Sherlock Holmes – Sir. Arthur Conan Doyle.


Bibliografia

PLATÃO. A Teoria das Ideias. São Paulo: Hunter Books, 2017.

EISENSTEIN, Sergei. O Sentido do Filme. 2 ed. São Paulo: Jorge Zahar, 2002.

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