Todos os amores no mundo da pandemia


A coluna de hoje foge totalmente da maneira direta de como abordei anteriormente a situação política brasileira. No presente texto, procuro refletir sobre esse assunto através de um outro tópico problemático: o amor.

Recentemente, assisti a minissérie Todas as mulheres do mundo (2020), refilmagem da obra cinematográfica de mesmo nome lançada em 1966 e que se dedica a abordar as diversas formas de amores e amores ilusórios existentes no mundo. Vemos o amor carnal, o amor de amigos, o amor sentimental, o amor à liberdade, o amor por cuidar do outro, o amor transformado em possessão pelo ciúme e o "utópico" amor eterno.

Vocês devem estar se perguntando o que levou o interlocutor que vos fala a assistir tal minissérie? Simples, o romântico que vive dentro dele. Por isso, compartilho com vocês duas surpresas que o programa me proporcionou e que me fizeram refletir muito sobre a nossa situação atual (política, poder e sociedade sempre estarão presentes em todos os temas, afinal, não somos seres políticos sociáveis ?!).

A primeira surpresa remete a um clássico da literatura Ocidental. A vida do protagonista da série, Paulo (interpretado por Emílio Dantas), espantaria muito o escritor alemão Johan Wolfgang Von Goethe, autor da obra Os Sofrimentos do Jovem Werther. Por que tal relação? Paulo e Werther sofrem do mesmo problema: um amor não correspondido, o que os faz sucumbir de diferentes formas.

Enquanto Paulo vive se apaixonando por diversas mulheres, por não poder ter sua amada Maria Alice (Sophie Charlotte) – fator que, acredito, deixaria Goethe incomodado, visto que distorce o romantismo inaugurado por ele no século XVIII –, Werther sucumbe à dor de não poder se relacionar com sua amada Charlotte (coincidência?!), porque ela está prometida a Albert.

A história de Werther nos é contada por Goethe por meio de cartas que o protagonista encaminha ao narrador. Nelas é possível perceber a dor, o desespero e a angústia de não poder ter alguém que se ama.

Já as diversas paixões de Paulo nos apresentam a dor de uma outra forma: a tentativa de preencher um vazio sentimental e existencial que a distância da pessoa amada causa. Ambas as situações me fizeram questionar as relações humanas em tempos de pandemia.

Nunca abraços foram tão queridos, contatos foram tão valorizados e conversas foram tão desejadas. A série é retrato de um mundo sem pandemia, no qual o cotidiano é representado por meio de relações, conversas em bares e a felicidade de se ter amigos como companheiros e amores. O livro é espelho das dores causadas pela inexistência de tais prazeres.

Levados a conviver com nossas famílias ou sozinhos, não temos perspectiva de retorno à nossa amada-odiada sociedade, o que nos causa certo desespero e a necessidade de nos adaptarmos à atual situação. Leituras, artes, filmes, culinária, limpeza, surtos, ócio; são diversas experiências que me ocorreram e imagino que a todos vocês também, pois somos intensos como Paulo e românticos como Werther.

Por sermos seres sociáveis, precisamos de contato humano. Tal característica nos leva à segunda surpresa, que pode ser iniciada com uma pergunta: a política pode nos devolver tais amores?

Num episódio da série, Paulo vai visitar sua mãe que irá se casar novamente. Em certo momento, ele se desentende como o noivo da mãe devido a opiniões políticas divergentes (não irei me alongar muito na descrição pois não quero dar spoilers). Ao conversar com sua amiga sobre essa discussão, uma frase de Paulo me chamou a atenção: “As coisas mais importantes da vida são poesia, arte, sexo e política. Exatamente nessa ordem”.

A política pode ser considerada um amor ou é vilã para ele? Ou o amor de quem a realiza pode ser visto como algo perigoso? Na última semana fomos desgraciados com duas ocorrências de dois líderes amados por setores de nossa população.

Primeiro caso: no dia (19/05) em que o Brasil bateu o recorde de mortos por COVID-19, o ex-presidente Lula, em entrevista concedida à Carta Capital, proferiu a seguinte frase para atacar as medidas tomadas pelo atual governo: “Ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus”. Sinto-lhe dizer ex-presidente, mas faltou bom senso em sua frase.

As famílias que perderam entes queridos não possuem a mesma visão sobre esse vírus. São pessoas que perderam amigos, amores, companheiros e que necessitam de condições de vida e palavras de conforto. Me espanta a tentativa da cega militância em defendê-lo, ao alegarem que o mesmo se arrependeu e pediu desculpas. O fator desumano não pode ser apagado.

Segundo caso: no dia 22 de maio, o ministro do STF Celso de Mello autorizou a divulgação do vídeo da reunião ministerial realizada no dia 22 de abril. O vídeo é utilizado como prova na investigação iniciada após a saída do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro, quando o mesmo alegou o interesse do presidente Jair Bolsonaro em interferir na Polícia Federal.

A trágica obra nos apresenta mediocridades vindas das intenções de se tomarem diversas medidas enquanto o Brasil passa por uma pandemia. O Ministro do Meio Ambiente (Ricardo Salles) deseja desregulamentar áreas de preservação da Amazônia, o Ministro da Economia (Paulo Guedes) busca onerar o bolso das classes mais pobres para que o Brasil saia da crise pós-COVID, o Ministro da Educação (Abraham Weintraub) quer prender os ministros do STF. Não bastando tais aberrações, o presidente (Bolsonaro) diz, em meias palavras ou palavrões, o interesse em interferir na PF para que as investigações não cheguem aos seus filhos e amigos próximos.

O descaso desses ditos “políticos” com a situação atual da população é defendido por pessoas que se encontram cegas de amor pela imagem do Bolsonaro anti-corrupto, militar e defensor da moral e dos bons costumes construída durante a campanha. Quando sairão de tal relacionamento abusivo? Esses fanáticos seguidores também são os responsáveis por ajudar tal governo a ter força e propagar o vírus para a população, visto que não cumprem as medidas do isolamento social e negam a ciência.

Numa situação onde mais de vinte mil pessoas perderam a chance de amar, questiono: política mal feita não seria uma vilã para o amor? Ou um amor totalmente cego, que endeusa certos líderes, não seria o culpado de causar uma política mal feita? Temo que tais perguntas ainda fiquem sem resposta, já que exigem muita reflexão, comprometimento e senso crítico.

Por ora, para que consigamos enfrentar as mazelas de uma pandemia, sugiro a poesia (a literatura de Goethe é uma boa indicação), a arte (veja a série), o sexo (com os parceiros dentro de casa devido à situação) e a política (realizem leituras, uma vez que o tema sempre deve ser discutido). Exatamente nessa ordem.



Referências


FOLHA DE SP. Vídeo de Bolsonaro acirra ânimos com STF e reforça versão de ingerência na PF. Folha de Sp. São Paulo, 22 maio 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/05/video-de-bolsonaro-acirra-animos-com-stf-e-reforca-versao-de-ingerencia-na-pf.shtml. Acesso em: 24 maio 2020.

GLOBO. Lula pede desculpas por avaliar positivamente o impacto do coronavírus na agenda liberal: 'sei o sofrimento que causa a pandemia'. O Globo. São Paulo, 20 maio 2020. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/lula-pede-desculpas-por-avaliar-positivamente-impacto-do-coronavirus-na-agenda-liberal-sei-sofrimento-que-causa-pandemia-24436962. Acesso em: 24 maio 2020.

GOETHE. Os sofrimentos do Jovem Werther. São Paulo: Editora Abril Cultural, 1971. 162 p.

TODAS AS MULHERES DO MUNDO. Seriado. Dir.: Patricia Pedrosa; Renata Porto; Ricardo Spencer. Rio de Janeiro: Estúdios Globo, 2020. (30 min.), color.

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