Um Senhor Estagiário

Notas preliminares (porque nós sumimos)


Faz alguns meses que não apareço por aqui, e última coluna, sobre o triste caso da Cinemateca de São Paulo, ironicamente terminou com a promessa de novos textos. Acho que, antes de irmos ao texto em si, devo algumas breves explicações:

Como a maioria de vocês sabe a Revista Teórico-Prático, nova iniciativa vinculada à editora (fica o mershan, deem uma olhada porque tá bem interessante), tem tomado muito de nosso tempo (falando por mim e pelo Vinícius). Além disso, as demandas pessoais acadêmicas e com relação a nossos empregos em salas de aulas, tem nos obrigado a se ausentar do blog, ao menos temporariamente.

Mas eu estou com saudades, e tenho sentido falta de escrever críticas e poder expressar minha opinião sobre os filmes que vejo. Entendam, isso não é uma promessa de retomada integral das postagens, de forma semanal, como ocorria antes. Não prometo uma periodicidade específica, mas pretendo voltar, na medida do possível, a alimentar a coluna com alguns textos de filmes e assuntos relacionados a sétima arte que, em minha não tão humilde opinião, tenha algo pertinente a dizer.

Dito isso, vamos ao texto!

Um Senhor Estagiário (ou O Estagiário)



Um Senhor Estagiário (ou O Estagiário, como é encontrado na Netflix) é um filme estadunidense de comédia, dirigido e roteirizado por Nancy Meyers, lançado em 2015. O longa, protagonizado por Anne Hathaway no papel de Jules Ostin, e Robert De Niro como Ben Whittaker, embora tenha sido lançado já há cinco anos, ganhou notoriedade após o lançamento de O Irlandês, figurando em indicações de grandes atuações de De Niro na terceira idade. O fôlego continuou ao se fazer presente, devido a seu tom extremamente leve e descontraído, em listas de filmes para se ver na quarentena.

A obra é realmente divertida, leve, e para relaxar. Sem grandes conflitos, tramas mirabolantes ou alta carga dramática, aposta, em grande parte de sua duração, em retratar o cotidiano de seus personagens (brancos de classe média / alta, fato que não chega a ser um demérito ou desqualificar o filme, mas deve ser mencionado, podendo incomodar os que buscam maior representatividade).

As atuações de De Niro e Hathaway são impecáveis e a amizade dos dois é construída de forma orgânica. Mesmo os coadjuvantes sem muito aprofundamento transitam bem pelo cômico, tornando suas características marcantes sem nunca soar caricatos, ou destoar da naturalidade construída e da unidade semântica. Na interação de Ben com seus colegas de serviço nasce a maior parte das cenas de humor, bem como a reflexão sobre a importância dos idosos para a sociedade (muito válida em tempos de COVID-19).

Essa reflexão se apresenta como um aspecto pelo qual é possível observar um significado sintomático da obra. Se ,explicitamente, Um Senhor Estagiário fala de empoderamento feminino e conflitos geracionais, implicitamente, aborda questões sobre masculinidade no mundo contemporâneo, e carrega como sintoma uma perspectiva conservadora de encarar essa questão.

Aqui, tendo em vista a extrema polarização política, a falta de diálogo e a grande onda de desinformação que nosso país atravessa, se faz necessária uma breve explicação: O pensamento conservador pouco, ou nada, tem a ver com o que o senso comum fez da palavra (assim como as pessoas de esquerda não são monstros que comem criancinhas). Ao contrário, é um pensamento filosófico refinado e complexo, pautado no ceticismo, e que de modo algum se coloca contra o “progresso” da sociedade, mas defende que este seja feito de forma gradual, se atentando as tradições e ao conhecimento historicamente construído. É, sim, antirrevolucionário, mas, de forma alguma, contra as mudanças sociais.

Encontrar conservadores de verdade no Brasil pode ser muito mais difícil do que parece, e eles, muito provavelmente, têm tanta raiva de certos políticos ou astrólogos pseudo-intelectuais quanto você.

(Um parêntese para destacar que: não sou especialista ou grande conhecedor do pensamento conservador, e minhas leituras na área são superficiais. Se alguém conhece a área em mais profundidade, sinta-se a vontade para me corrigir ou complementar o supracitado).

Voltando ao filme, e porque eu argumento que têm uma perspectiva conservadora? Comecemos pela cena na qual isso fica mais evidente: o bar. Nela, Jules, bêbada, questiona seus companheiros de serviço do porque, quanto mais independentes as mulheres ficam, mais os homens deixam de ser homens e se tornam meninos, citando Ben como espécie em extinção, desde o vestir até a forma de agir.

A mesma ideia é reforçada diversas vezes, sobretudo na relação do personagem de De Niro com os estagiários mais jovens, e na admiração que esses adquirem por ele. Como materialização de tais aspectos, destaca-se: a sugestão de usar uma camisa, traje social e tradicional, para entregar uma encomenda na casa de Jay-Z; a maleta e, claro, as inúmeras cenas que evidenciam a importância do lenço, talvez o maior “conceito-imagem” que evidencia a necessidade de se olhar para as tradições.

No entanto, e pode parecer paradoxal, outro sintoma advindo das reflexões sobre masculinidade é justamente a desconstrução do estereótipo de homem historicamente representado em Hollywood. Como assim? Vejamos.

Ben é a representação da importância das tradições e de um ideal de masculinidade que está se perdendo, mas é, ao mesmo tempo, o completo oposto do que se tradicionalmente construiu, através de filmes, no imaginário popular sobre o que é ser homem: ele é gentil e carinhoso; não tem medo de demonstrar ou falar de seus próprios sentimentos; reconhece quando precisa de ajuda; não têm problema em ser subordinado a uma mulher e a incentiva a não abrir mão de seus sonhos por um casamento; sabe como lidar e cuidar de crianças; dirige com cuidado, etc.

Compare agora com alguns personagens clássicos tidos como modelos de masculinidade, tais como: Michael Corleone (O poderoso chefão); Charlie Harper (Dois homens e meio) ou até Johnny Boy (Caminhos perigosos) e Travis Bickle (Taxi Driver), os dois últimos interpretados pelo próprio De Niro, e verá a completa incompatibilidade de Ben com eles.

Um Senhor Estagiário articula, de forma interessante e acessível, duas perspectivas que, ao olhar do senso comum, podem parecer antagônicas, mas, quando observadas com maior profundidade, se complementam.

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